As Delícias de Soraia

Vício = Tendência específica para o consumo irresistível de algo ou para qualquer ato ou conduta por essa tendência motivada. 

Há pessoas denominadas dependentes químicos que buscam até ajuda para livrar-se desse mal. Há alcoólatras, que afogam sua mágoas na bebida, como se ela fosse um antidepressivo. E há vícios mais inofensivos, como aquela mulher que compra bolsas/sapatos/brincos sempre que briga com o namorado. 

Eu tinha um vício. Inofensivo. Mas do qual era totalmente dependente. Consumia-o todos os dias. Ele era o meu antidepressivo. Minha fonte de prazer, meu calmante. 

Eu era chocólatra. 

Não chocólatra do tipo que ingere toneladas de bombons em questão de segundos, nem que deixava de pagar uma dívida para comprar chocolate. Mas chocolate era algo que não faltava na minha casa, nem na minha bolsa. Todavia, só o consumia quando estava super emotiva. Muito feliz, muito triste ou muito nervosa. E não engolia tudo de uma vez não, não. Eu apreciava o sabor. 

Eu era do tipo que desembalava o ouro com o maior cuidado, avaliava seu formato, sentia seu cheiro, fechava os olhos para senti-lo melhor, passava a língua de leve sobre sua superfície para experimentar o açúcar e, só então, mordia-o de leve, para não rachá-lo em mil pedaços. Em seguida, mantinha-o em minha boca pelo máximo de tempo possível, fazendo-o derreter e misturar-se na saliva, então, lhe mastigava, sujando os dentes e os lábios. Por fim, o engolia, deliciando-me com a sensação de senti-lo deslizando pela minha garganta. Aí eu lambia os beiços e os dentes, depois chupava minha língua até ela perder o sabor, e só então me preparava para a próxima mordida. 

Era uma terapia total. Quem me visse, diria que eu estava namorando o bombom. 

Devido esse meu vício, eu sempre me prejudicava em meus relacionamentos. Como por quê? Era muito fácil me conquistar, me fazer perdoar: era só me dar bombons. E, cá entre nós, que homem não dá bombons para a namorada? Afinal, já ouviu alguma mulher dizer que não gosta de chocolate?! Algumas até se ressentem, por gostar tanto. Eu era uma dessas. 

Até por que eu vivia em busca do corpo perfeito, mas estava sempre um pouco acima do peso. A Nágila sempre comentava: 

- De nada adianta horas suando na academia se você acaba com esses bombonzinhos, Soraia! Você devia procurar um psicólogo, sabia? Isso é decorrente de um trauma de infância, onde você se sentia muito carente e... 

Precisava de algo para me aliviar, me confortar, me passar segurança. Era sempre a mesma história, mas ela estava certa. Eu fui uma criança carente, e fui uma adolescente cheia de frustrações. Por ser meio gordinha e sardenta, com o cabelo oscilando entre o ruivo e o loiro, assim, meio alaranjado. 

- Ah, lá vem você com esse papo de novo. É sempre a mesma história. Olha Soraia, você tinha 1,60 e pesava 60 Kg, não era tão redonda quanto parece pensar que era. Tinha uma gordurinha sim, mas por culpa de quem? Dos churrascos de domingo na casa do Renato. E você sempre teve olhos azuis lindos. Sério, sério mesmo, eu tenho inveja de você. 

Ela dizia isso para me animar. Nágila era minha melhor amiga desde o colegial, sempre fora morena com corpinho violão, e se recusava a fazer faculdade por que tinha talento para artes. Imagina, minha melhor amiga, uma artista! É, eu já era mulher e nem sabia o que cursar, a única decisão que tomara na vida fora morar sozinha. 

- Uma mulher? Ah, cala a sua boca, Soraia. Você só tem 19 anos, só está a um ano longe das salas de aula. É bom para relaxar, arrumar um namorado... 

Ela sabia muito bem que eu não era boa nesses assuntos. Aliás, vivia se gabando por ser experiente, só por que seu histórico romântico tinha uma extensão invejável que incluía até mulheres. Mulheres! 

Eu só tive dois ou três namorados (varia com o ponto de vista): 

1. O primeiro foi quando eu tinha sete anos de idade, na base de selinhos molhados. Pai do céu! eu nem tinha peito. Nem lembro o nome do sujeito. 

2. O segundo foi com quatorze anos, o garoto era um ano mais novo que eu, chamava-se Mauro. Infelizmente, ele tentou pegar no meu peito no terceiro mês de namoro, então terminei tudo com ele. 

3. O terceiro foi aos quinze, com um cara de dezenove. Fabrício. Foi ele quem tirou minha virgindade, depois de um ano de resistência da minha parte. Aí comecei a engordar, não sei por quê. Ele me trocou, mais tarde, por uma mulher de vinte e cinco. Fiquei deprimida por quase um semestre inteiro, mas aí eu conheci a Nágila e comecei a ir pra balada com ela. 

E aqui estou eu, encalhada. 

Saí de casa três meses atrás, quando meu pai se aposentou e decidiu curtir a infância perdida, fazendo com que eu me sentisse uma pedra em seu caminho. Tipo “já que te criei, agora dá o fora daqui”. Sim, eu era filha única, uma gravidez acidental, se for ver. Talvez até indesejada, não duvido. Mas eles (os pais) nunca assumem isso, certo? 

Um mês sozinha foi suficiente pra eu adotar um cachorro, na esperança de sentir-me menos só. Apesar de chegar do trabalho e encontrar o Tadeu abanando o rabinho para mim, não pude ficar com ele. Por que, bem, ele cagava demais! pelo quintal inteiro! e aquilo fedia pra c***. 

- Não acredito que você se desfez do Tadeu. Sabe aquela casa de shows que fui com minha priminha de 17? Beijei um menino feio de doer, só por que ele se chamava Tadeu. Eu queria matar a saudade. – lamentava Nana. – Dá um desses chocolates que você tem aí, vai. – um momento de silêncio – Vai Soraia, eu sei que você tem bombom! – suspiro, derrotada. 

Nana era dois anos mais velha que eu e ocupava o lugar da minha mãe. Bom, pelo menos ela tentava. Mas era eu que lhe consolava sempre que o namorado a deixava. Ela entrou um ano atrasada na primeira série e repetiu a quarta, por isso acabamos terminando o ensino médio juntas. 

- Nana, que tal você vir morar comigo, ein? Seria uma boa, não? Eu sempre quis ter uma irmã mesmo. – lancei a isca. 

Ela mordeu, mas com contrapartida: 

- Tá, mas você lava a louça. 

- Ué, temos que revezar. – pensei rápido! 

- Não gosto de lavar louça! 

- Tá bom, mas então você lava o banheiro. – astuta, dei uma piscadela. 

- Também não gosto de lavar banheiros. 

- Aí não dá, né, Nana! – resmunguei, fazendo beicinho. 

Ela não resistiria aquela faceta. 

- Ok, eu limpo a casa. – revirou os olhos. – Mas desde que... 

Xii, pelo olhar vinha uma proposta indecente por aí. Sacana! 

- Que o quê? – Pow! quis completar, mas era melhor não atiçar a cobra. 

- Desde que eu possa levar namorado pra dormir em casa. 

- Desde que não seja um por fim de semana, tudo bem. Se não isso vai prejudicar a nossa... 

- Relação? 

- Eu ia dizer imagem. – encarei-a e, não teve jeito, caímos na risada. 

Já vi que aquilo ia dar merda. 


Não é todo dia que você está com cabeça pra pensar. Tinha dias que eu acordava, mas não queria levantar da cama. Pra nada. Por ninguém. Todavia, eu tinha que procurar emprego, me matricular na faculdade, cuidar de mim, cuidar da casa... 

- SORAIA!! O resultado do vestibular já saiu, vem ver aqui no site se você passou! Anda, levanta! – berrou Nana, louca para me arrancar da cama. 

Olhei para o relógio e era exatamente nove horas da manhã. 

Cedo demais. 

Levantei-me vagarosamente, tentando fazer meus olhos se adaptarem ao clarão inusitado que atravessava a janela. Arrastei-me até o laptop sobre a mesa da cozinha e comecei a navegar pela lista de nomes que passaram para no vestibular. 

À medida que a lista foi se acabando comecei a acordar. Por fim, eu estava totalmente desperta, com os olhos pregados na tela do computador. 

- Ah, droga. – resmunguei. 

- O que foi, Soraia? Seu nome não está aí? – manhosa, a expressão de Nana foi de expectativa para preocupação. 

- Não. Eu não passei. – mordi o lábio. 

Não sabia por que me sentia tão chocada, já esperava por aquilo. Sabe aqueles dias que você não está com cabeça para pensar? O dia que fui fazer a prova era um desses. 

- Ah, que pena! – disse Nana, me abraçando. 

Olhei para seu rosto e reparei que chorava. 

- Não fica assim não, Nana, eu nem tinha certeza do que cursar. 

- Mas... mas eu queria ter uma amiga na faculdade! – choramingou ela. 

Comecei a rir. Só a Nágila para me fazer rir num momento daqueles. 

- Veja pelo lado bom: vamos passar mais tempo juntas. 

- Não vamos não. Você disse que se não passasse no vestibular ia aceitar aquela proposta de emprego em período integral na Claire Cosméticos. 

Emprego. Período integral. Claire Cosméticos. As palavras me vinham à mente pouco a pouco, enquanto eu digeria o fato. Eu tinha um emprego: trabalhava por meio período nos finais de semana e feriados como garçonete num bufê requintado da região desde os dezesseis anos. E odiava meu emprego. Como não tinha muitos benefícios, compensava minha renda em lojas de departamento durante as altas temporadas de vendas no ano. 

Não lembro mais ou menos como aconteceu, mas troquei contato com um cliente cujo primo era filho do gerente administrativo da Claire Cosméticos e, recentemente, recebi uma ligação do departamento de RH dizendo que surgiu uma vaga no setor comercial e eu tinha o perfil ideal. Eu sequer havia enviado o meu currículo... Só de pensar em ter um emprego de verdade, sentia cambalhotas no estômago. Pelo menos, finalmente me veria livre daqueles uniformes medonhos. 

- Puxa, havia me esquecido completamente disso! – droga! pensei. 

- Você pediu para eu te lembrar caso você esquecesse. – droga de novo! 

Essa era uma das minhas principais características: esquecer as coisas. Não que eu fosse uma cabeça oca, mas as coisas menos importantes eu simplesmente apagava da memória. Claro que às vezes isso me prejudicava, pois não era muito bom você não se lembrar de promessas ou deixar a comida queimar. Também não era muito bom você esquecer o nome do chefe ou do atual namorado ou daquele velho amigo. 

Nana sempre me dizia que eu tinha que ser mais observadora, pois as coisas aconteciam a minha volta e eu nem me tocava. Isso era mal. 

3

Primeiro dia de trabalho é difícil. Primeiro dia de qualquer coisa é difícil. A ansiedade corroi a alma. Exagerada? Atire a primeira pedra quem nunca se atrasou por que ficou com dor de barriga! 

Não fazia ideia do que vestir, então, na hora das compras, peguei de tudo. Provavelmente meu primeiro pagamento (Pagamento! Uau! Não acredito que em breve eu seria uma assalariada!) seria apenas para liquidar a dívida dos cartões de crédito. Esse era mais um dos meus maus: tinha o terrível hábito de me credenciar em todas as lojas possíveis. Adorava colecionar cartões, deixava minha carteira um tanto colorida. Cartão de crédito, clube de vantagens, fidelidade. Tinha de tudo! 

Eu precisava causar uma boa primeira impressão. Precisava ser simpática, não demonstrar nervosismo, ser engraçada nos momentos certos, parecer séria ao computador. Demonstrar pró-atividade, comprometimento, liderança, altruísmo e todas aquelas palavras bonitas que aprendemos nas dinâmicas de grupo da vida. 

Minha roupa, meus sapatos, meu cabelo e minha maquiagem tinham que transmitir isso. Ah, as unhas também! Não vamos esquecer as unhas. Elas tem um papel fundamental nos apertos de mão. Ainda bem que eu havia agendado manicure com antecedência. 

Unhas feitas, cabelos escovados e presos num coque, maquiagem leve, sapatilhas de salto baixo e um conjuntinho tipo preto básico: eu estava pronta. (E com uma dor de barriga terrível). 

- Soraia Muniz: relaxa. Pelo amor de Deus! 

A Nágila era uma ótima colega de casa durante minhas crises de nervos. Quando eu estava estudando para o vestibular, ou quando passei os dias em agonia à espera da ligação prometida (homens!) e neste momento, quando ensaiava freneticamente frente ao espelho como me comportaria diante dos meus novos colegas de trabalho; ela era sempre muito solidária e realista. Fazia minha parte das tarefas domésticas, mas me dava beliscões e puxões de orelha sempre que necessário, para que eu fincasse os pés no chão e parasse de roer as unhas. 

Como sempre, ela estava mais do que certa, não havia motivos para toda minha aflição. Fui muito bem recebida, principalmente quando me perdi entre os corredores da empresa quando encaminhada a sala de quem, dali em diante, seria minha chefa. Fora ela quem me localizara e, cordialmente, serviu-me de um copo d’água e já foi adiantando quais seriam minhas obrigações ali. 

Estefani era uma mulher linda, não havia como negar. E um tanto sensual também, pelo modo como balançava os cabelos e cruzava as pernas ao sentar. Tinha pernas bem torneadas que entregavam seu hábito de malhar. Por um breve momento, senti-me intimidada por estar fora dos padrões. E comprar calças com uma numeração a menos só fez com que minhas sobrinhas indesejadas pulassem e formassem aquele temido pneusinho. Por sorte, minha camisa era mais folgadinha e conseguia esconder tudo. 

Já tentara de tudo. Tomava remédios para emagrecer, usava cremes que prometiam redução de medidas, frequentava a academia – três vezes por semana durante uma hora – e estava sempre de dieta. Mas era só surgir uma crise emocional que eu me empanturrava de chocolate, sorvete, massas e diferentes pãezinhos da padaria da esquina, aí minha dieta ia por água abaixo. 

Durante a adolescência, tive sérios problemas com indução de vômitos. Só me alimentava de arroz branco e salada verde, vivia com fome e com a boca seca, mas quando comia uma fatia de bolo de cenoura com cobertura de chocolate que a tia do mercadinho da escola preparava ou um misto quente no trailer que ficava estacionado na saída da escola, sentia-me horrivelmente culpada, enfiava o dedo na goela e me obrigava a vomitar tudo. 

A Nágila nunca tivera problemas com peso: tinha um metabolismo acelerado invejável. Olhei para Estefani mais uma vez. Como ela conseguia? 

- E então, está pronta para conhecer a equipe? – sorria ela, com os olhos alegres. 

Assim que entrei na sala, percebi que estava elegante demais. As garotas usavam roupas mais frescas e havia rapazes de bermuda. Por que eu escolhi uma roupa social, por quê? Seguido a formalidade das apresentações, acomodei-me no que seria dali adiante a minha mesa. Senti um orgulho subindo na garganta e não consegui evitar um sorriso com isso. Minha mesa! Quem diria! Eu, Soraia: auxiliar comercial da Claire Cosméticos. O que significava, basicamente: nunca mais me faltaria lápis de olho e chega de batons de mil anos no estojo de maquiagem! 

Ainda estava envolvida em meus devaneios quando um jovem esbelto virou-se para mim e me deu um sorrisão. 

- Oi, eu sou o Felipe. O que você precisar, pode contar comigo! 

Ai, que meigo! não pude deixar de pensar. Felipe não aparentava ser muito mais velho do que eu, e era um gatinho. Mas eu tinha a auto estima baixa demais para acreditar que ele estava flertando comigo. Mesmo assim, dei-lhe meu melhor sorriso. 

Não demorou muito para que eu me habituasse com a rotina do escritório. A eficiência se esvaiu na minha primeira semana de trabalho. Ainda que bem maquiada, entendi a necessidade de usar roupas mais confortáveis durante o período de trabalho. Ninguém merece ficar com as roupas colando depois de um expediente com a bunda grudada na cadeira. Estefani não gostava de ser incomodada, então tínhamos que ser autossuficientes na medida do possível. 

As coisas ficaram mais fáceis entre eu e meus colegas depois do primeiro happy hour. E foi nessa noite que rolou aquele clima entre eu e o Felipe. Talvez por que eu era carne nova no pedaço. Depois de algumas rodadas de cerveja, sentia-me a vontade demais para ficar tímida ou gracejar com suas piadinhas.

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