Memórias de Samara

Tenho 12 anos e meus cabelos são longos e tem cor de chocolate que combinam com meus olhos de mesma cor. Tenho dificuldade para se concentrar na aula e sou completamente desprezada pelas outras meninas da escola. Gosta de um garoto que me acha muito estranha. Sou filha de uma manicure que sabe da vida de todos os vizinhos e um inspetor de qualidade de uma indústria de materiais eletrônicos que teme ser demitido porque está ficando velho. 

Maycon, meu irmão, tem 15 anos de idade e adora ciências, é um dos alunos mais notáveis da escola por suas habilidades em química, física e biologia. Quando estamos fora de casa ele finge que não me conhece, e quando estamos em casa ele passa a maior parte do tempo em seu quarto pensando no que fazer para impressionar uma garota. 

Já Sofia, minha irmã mais nova, é muito inteligente para sua pouca idade e amante dos livros. Com apenas seis anos ela sabe ler e escrever muito bem e é a melhor em gramática na sua turma. Está sempre com um romance inadequado para sua idade debaixo do braço e vive corrigindo os erros de português alheio. Ela parece a única que não tenta guardar nenhum segredo de mim. 

Não tenho nenhuma habilidade específica, e sofro com a tensão em casa quando estou presente, prefiro passar horas em lugares desertos como o bosque ou a praia, pouco visitados porque a cidade é muito fria para nadar e o bosque tem animais selvagens perigosos. Todos em casa aprenderam a pensar seriamente no que passou na novela das nove de ontem quando estou por perto. Isso porque quando eu tinha quase dez anos simplesmente tomei conhecimento dos segredos de todo mundo à mesa do jantar. 

Porque eu consigo ouvir pensamentos. 

O pior é que não tem muito controle sobre esse dom – se é que é um dom, às vezes ouço coisas que não quero ouvir, às vezes ouço muitos pensamentos ao mesmo tempo, e recentemente aprendi que podia ler lembranças. Quando alguém com lembranças muito fortes se aproxima de mim eu não consigo evitar, meus olhos logo se clareiam e ficam cor de violeta. Por isso aprendi a andar com os cabelos sempre soltos, pelo menos disfarça a intensidade com que olho sem piscar dentro dos olhos de alguém como se estivesse vidrada. 

Não demorou muito para que eu começasse a ler os pensamentos dos peixes e dos animais, fazendo com que o bosque e a praia deixassem de serem lugares agradáveis de viver. Parece que conforme eu cresci, mais o dom piorava, evoluía. Numa situação de risco acabei descobrindo que posso transmitir meus pensamentos à outra pessoa. 

Talvez, se os outros não me tratassem como uma anormal, eu poderia aprender a aceitar essa deficiência e conviver com isso. Mas não é bem assim. 

Ainda não sei se existem outras pessoas como eu. Se existe, gostaria de conhecê-las. Se não existe, gostaria de saber por que eu fui a escolhida. Às vezes penso que estou no lugar errado, que não faço parte dessa família e que algo muito importante está prestes a acontecer. Os mistérios que envolvem a minha mente precisam ser desvendados. Não aguento mais sentir o turbilhão de emoções que sinto quando ouço a paixão com que alguém se apaixona, o tédio de um aluno em sala de aula, os delírios de uma suicida dentro de seu quarto. Tudo o que eu quero é ficar em paz. Ou pelo menos aprender a controlar isso, sintonizar o que quero ouvir como fazemos ao escolher uma estação de rádio. Isso: eu quero ter escolhas. Realmente não quero estar ciente do que passa na cabeça dos meus pais quando estão sozinhos em seu quarto.

Comentários

  1. Adorei, queria poder ter um dom assim, ainda mais ler pensamentos
    beijos

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