Bate forte o coração

O diário começou devido a necessidade de expor seus sentimentos, Nara sabe que há coisas que não dá para contar à mãe e nem às amigas, apesar de serem tão preciosas.

Típica beijoqueira, ela começou a frequentar baladas cedo e, num certo momento, teve a curiosidade de arranjar um namorado, e essa oportunidade chegou quando se apaixonou por Douglas. Com um namorado ciumento, aos poucos Nara foi deixando para traz a rotina que tinha ao lado das amigas, e se tornou uma garota mais decente e concentrada nos estudos.

Foi então que Nara começou a se sentir mais confusa do que nunca: amava o namorado e as amigas, mas tinha que escolher entre um e outro. A história se desenvolve num roldão de acontecimentos, e no decorrer do diário Nara encontra a solução para manter o equilíbrio necessário entre as suas duas paixões.


. . .

7 de maio, quinta-feira, aula de história

Logo na primeira aula teve prova de biologia, e eu jurando que a professora Alice fosse passar mais algum vídeo idiota sobre a cruzação de ervilhas, como ela sempre faz. Olhei aflita para as perguntas, afinal, não tinha nenhuma noção das respostas. O pior é que ela fez revisão da matéria ontem, justo o dia em que eu matei aula!
Dei um jeito de chamar a atenção de Andressa, que se senta na terceira carteira da fileira ao meu lado (eu me sento na quarta carteira da minha fileira), e fiz sinal para que ela me passasse cola. Ela escreveu as respostas em um papelzinho e jogou no chão, como se não estivesse fazendo nada de mais. Fingi que o meu lápis caiu sem querer querendo e quando agachei para pegá-lo apanhei o papelzinho sem que ninguém percebesse.
Mas, para a minha má sorte, a Letícia Figueiredo (minha inimiga desde a sétima série, quando repeti por culpa dela) viu tudo, e o seu primeiro ato foi me dedar para a professora. Loraine me olhou surpresa, e vendo que eu e a Andressa estávamos ferradas, deu logo um jeito de fazer a classe inteira se sacudir, e bagunça é com ela mesma.
Amassou a própria prova e acertou a cabeça da Letícia gritando “ta incomodada Figueiredo? Se mata, babaca!”. Pra que? Só vi papel amassado e aviãozinho sendo arremessado de um lado para o outro.
Graças á Deus, a prova foi anulada e agendada numa data distante o bastante para eu poder estudar a matéria perdida. Eu sei que há tempo a Alice está me marcando, ela sabe que eu não entendi nada sobre o velho chato lá, o Mendel.
Assim que o sinal tocou, alertando a troca de professores, eu e as meninas nos agrupamos para colocar a fofoca em dia. Sabe como é, aula de artes, a idiota da Dalila só passa desenhos como se ainda estivéssemos no primeiro ciclo do ensino fundamental. Desse jeito, eu até estou sentindo falta da Cleuza, apesar de não entender nada sobre seguimento e pontilhismo, mas ela tinha problema de coração e achou melhor parar de dar aula antes que tivesse um treco.
As meninas estavam loucas para ouvirem as novidades, me senti uma celebridade (doce sonho. Mas não passa de um sonho mesmo, sou muito baixinha para ser modelo, e minha voz é muito melosa para eu ser cantora. E eu pareço uma lagartixa com cãibra quando danço. Por este motivo, não gosto de ir a baladas, por que as pessoas vão lá para dançar, não é mesmo? Nunca chegarei aos pés das musas que estão coladas na parede do meu quarto. Amo elas. Amo a arte delas. Fugi totalmente do assunto. Ah, esquece.)
“Por que quis colar?” Perguntou Andressa, jogando seus longos cabelos cacheados e castanhos na minha cara.
“Eu não tinha metade da matéria. E faltei na revisão.”
“E por que não me avisou? Eu te passava a matéria via e-mail pra você estudar.”
“Eu vírgula, Andressa! Por que não NOS avisou??” Disse Loraine, uma ruiva sardenta de meio metro, a encrenqueira. “Nara, você devia seguir o anônimo que dá todas as respostas do caderno do aluno no twitter.”
E Rebeca, minha loira preferida (ela sim daria uma boa modelo, alta e loira, olhos claros, super magrinha, mas com peito e bunda o suficiente para chamar atenção.), apareceu de intrusa na conversa. Ela estuda na sala ao lado da nossa e conseguiu fugir da aula de física, o que é uma glória, pois o Lucas passa exercícios feito um louco, é uma matéria de nada acompanhada de uma tonelada de atividades.
Só vou escrever o que importa da nossa conversa, o que não é muita coisa, já que quando nós nos juntamos só sai besteira.
“Peraí, eu tô passada, qual é o babado?” Questionou a Beca.
“A Figueiredo dedou pra fessora que eu tava colando.” Resumi.
“E agora você ta com vermelha em biologia? Se mata!”
“Eu vou matar a Alice, pra ver se ela para de exibir aquele piercing no umbigo.” Rosnei.
“Pensei que o fato já tinha ocorrido, todo mundo comentou a bagunça na sua sala. Escutei até os gritinhos da Lô.”
“Mas diz aí Nara, vomita tudo: O que você foi fazer em plena quarta-feira que te fez faltar na escola?” Questionou Andressa, e todas olharam curiosas para mim.
“Meninas... eu fiquei com o Marcelo!” Exclamei, e nos abraçamos, pulando de alegria.
Deixa-me explicar: Marcelo é um moreno muito lindo que há tempo eu paquerava, mas ele era comprometido. Agora ele está super solteiro, então eu não perdi tempo e fisguei o gatinho.
“Me morde, Nara! Você nem convidou a gente pra ficar de vela” Lamentou Rebeca.
“Imagina que emoção seria ver a Nara pegando o ex da Figueiredo!” Caçoou a Lô.
“Ei, deve ser  por isso que ela quis te ferrar na prova...” Concluiu a Andressa.
Vou deixar bem claro aqui: Não faço o tipo galinha, mas é que não resisto á oportunidade de roubar namorado das gêmeas Figueiredo, é o mínimo que eu posso fazer depois da Letícia ter dado o seu primeiro beijo no meu namorado (o nome dele era Otavinho, nós dois éramos BV – boca virgem – e estávamos na quarta série. Ta, foi ele quem beijou ela, mas ela deixou!!!).
Agora me dá licença porque tenho que copiar o texto que a Amanda está passando, daqui a pouca ela vai começar sua viagem para o Renascimento, lá no século XV.

Ainda na quinta, após o intervalo

Não briguei com a Letícia. Mas discutimos. Todavia, não passou disto: Uma troca de “elogios”. Eu joguei na cara dela que ela morre de inveja de mim. Falei do Marcelo, e ela começou á chorar. Lágrimas de crocodilo, afinal, o diretor Alberto estava bem atrás de mim. Não sei como não notei a sombra da sua pança grande sobre mim.
Resultado: Diretoria e convocação. A Letícia não foi comigo por que o Alberto achou que ela era a vítima. Me morde!!
Eu a odeio. Odeio desde que ela roubou meu trabalho escolar e fiquei sem nota, o que me fez repetir a série. Acontece que o trabalho estava errado e seu esforço em me roubar foi em vão, o que lhe fez repetir também. Naquele tempo éramos super amigas, mas eu já tinha aturado muita coisa dela e isto foi a gota d'água. Diz ela que nós duas precisávamos de nota e que íamos repetir de qualquer maneira, mas não admito o fato de ela ter me traído, ela podia ter passado e me deixado para trás por causa desta sacanagem.
Ela me apunhalou pelas costas, nunca lhe desculpei por ter virado a casaca desse jeito.
Neste ano, sua irmã voltou á estudar. São gêmeas, mas Bárbara tem um temperamento mais agressivo, devido ás drogas. Parou de estudar quando tinha  treze anos, aos quatorze foi para uma casa de recuperação. Creio que agora ela está limpa.
Andressa, Loraine e Rebeca são minhas amigas de infância. Mas ganhamos mais proximidade na oitava série, quando eu caí na sala da Andressa e da Lô, e nos demos conta de que tínhamos os mesmo gostos e opiniões.
Foi através delas que eu conheci o que é diversão, e o que é uma amizade verdadeira. Hoje, que estou quase alcançando meus dezessete aninhos (falta só uns cinco meses!), esses dois fatores ganharam um grande espaço na minha vida.
Agora é aula de reforço então eu posso ficar aqui escrevendo toda a vida, até a morte – como diria a Andressa.
Desculpa não ter me apresentado logo de início, acontece que eu nunca fiz um diário. Minha mãe que veio com uma idéia de que eu precisava encontrar outro centro de desabafo que não fosse minhas amigas. Ela esqueceu que eu tenho o Puf, eu conto tudo para ele. Adoro enrolar seu pelo no meu dedo até formar cachinhos enquanto assisto a minha novela das sete.
Apesar de tudo, eu amo minha mãe. Mesmo ela não me deixando sair á noite e me proibindo de namorar. Sinceramente, eu não me importo, afinal prefiro eventos caseiros e me recuso á assumir um relacionamento sério, até porque nunca me apaixonei.
Pelo menos a minha mãe não fez como o meu pai, que foi embora quando eu tinha dez anos, simplesmente porque ela engravidou novamente e ele achou que dois filhos já era demais para ele. Mantemos contato, mas é um contato bem frio. Ele nem veio na minha formatura da oitava série! Ás vezes eu sinto sua falta, mas sei que um dia vou superar.

Ainda na aula de reforço

Parei de escrever porque o Mateus veio encher o saco. O Alberto Filho (nosso diretor gordo, alto e chato) entrou na sala para dar um comunicado aí o professor fingiu que estava revisando o conteúdo de matemática (eu não sou a única que tem dificuldades com cálculos).
Eu amo a aula de reforço. É a única aula que podemos fazer a unha e fofocar ao mesmo tempo. A aula também serve para paquerar, fingimos que estamos com problemas em alguma matéria e somos socorridas por super-heróis meigos. Bom, no meu caso não é fingimento.
“Como é que é, Nara? Vai ficar rabiscando esse caderno idiota toda a vida, até a morte?” A Andressa acabou de dizer para mim.
Ela é a mais centrada da turma, só vem para essa aula porque não entende bulhufas de geografia (com um professor como o Marcelo, ninguém entende nada mesmo), faz o tipo romântica e disciplinada, mas por traz de sua santidade se revela uma garota sensual e traquina.
Completamente o contrário da Lô, que aparenta ser totalmente sem noção, afinal, qualquer coisinha lhe tira do sério. Todavia, possui uma simpatia invejável. Admiro-lhe pelo seu coração enorme, sua capacidade de cuidar de quem ama, e pelo número de meninos que costuma beijar numa só noite (Loraine é sempre convidada para festinhas. Não me pergunte como).
Já a Beca, a mais velha de nós, não costuma ficar com qualquer um, e isto só faz com que o número de meninos – incluindo os professores – que querem namorá-la aumente. Namorou sério uma única vez, por três anos, o que faz dela, uma mulher experiente. Geralmente, quando nos reunimos na casa da Andressa para fazer algum trabalho escolar, ela sempre nos dá uma forcinha.
Eu amo as minhas amigas.
Infelizmente, não posso dizer o mesmo de mim. Detesto esse cabelo escorrido, por isso vivo fazendo trancinhas, pra ver se ele pelo menos ondula. Odeio essas espinhas que nascem sem limite e deformam o meu rosto.
Ás vezes eu pergunto á Deus: Por que tenho um bumbum tão pequeno? Por que minha mãe não reconhece a grandeza da minha responsabilidade e independência? Por que meus seios pararam de crescer? E o pior, por que existe o raio da menstruação?!

Quinta (ainda), em casa, 12h45

Cara, eu tô inconformada com a falta de confiança que a minha mãe deposita em mim! O costume é eu chegar em casa por volta das 12h30, mas eu sabia que as gêmeas Figueiredo estariam á minha espera no horário de saída (escola pequena=notícia corre rápido), então vim por outro caminho, que é um pouco mais longo, para não trombar com elas.
E consequentemente, cheguei em casa dez minutos mais tarde. O suficiente para minha mãe implicar comigo e insinuar que eu estava fazendo algo errado.
Que tédio.
Para piorar, o Puf fez cocô em todo canto da casa, menos na caixinha de areia. Ok, eu sei que é gatos que fazem necessidades na areia, mas por que o Puf não pode fazer isso também mesmo sendo um cachorro? Não ensinaram ele á sentar, deitar, rolar? Por que não posso ensinar meu poodle á  fazer cocô na areia?!
Eu sei que um dia ele vai aprender. Um dia.
Mamãe foi buscar o João na escola e o almoço precisa estar pronto até eles chegarem, por isso, tchal tchal.



Quinta, após a janta

Novidade: Um cara lindo se mudou para a minha rua, um cara lindo mesmo: Moreno, alto, forte (deve frequentar academia) e tem moto. Veio com os pais, aparenta ter uns 23 anos. Mudou-se esta tarde, logo depois do almoço, sei disso por que vim pro meu quarto fazer os deveres e quando olhei pela janela (que é de cara com a rua), lá estava o caminhão estacionado na frente de uma casa simpática, e o moreno ajudando a carregar os móveis para dentro da casa.
Já liguei para as meninas e contei tudo. Desculpa! Mas é que eu estava tão empolgada que não ia conseguir escrever nada. Demorei pra vim te contar por que tenho 3 melhores amigas, que amo igualmente, e assunto é o que não nos falta. Elas me aconselharam a dar uma investigada, pra saber mais sobre o gato. Depois ficamos falando sobre o Marcelo, elas queriam saber os detalhes, o que conversamos, que gosto tem seu beijo, essas coisas, coisas que só comentamos com amigas de verdade.
Só isso, juro! Ocupei a minha tarde falando no telefone e depois ajudei minha mãe com a janta, mas nada.
Acho que por hoje é só. Agora tenho que ir, mamãe alugou um filme de comédia super maneiro para assistirmos e encomendamos pizza de mussarela, se eu não correr vou perder o começo.

08 de maio, sexta, aula de física

Hoje eu acordei a minha mãe com um grito, ela correu pro meu quarto para ver o que aconteceu e surpreendeu-se com a minha cara pálida de frente com o espelho e eu, completamente apavorada, apontando o dedo para a enorme espinha na ponta do lábio. Não tinha um lugar melhor para ela nascer não?
Estou me sentindo horrível. Mas a senhora Fátima não faz o tipo compreensível, tanto que fez uma cara de pouco caso e disse “larga de drama Nara, é só uma simples espinha, já devia ter se acostumado... daqui alguns dias ela some.”
Dias? SIMPLES espinha? Ela realmente não tem o menor senso de estética, isto aqui está do tamanho de uma ervilha.
Estou arrasada. Ela me obrigou a vir pra escola nessa horrenda situação, quando eu resmunguei que iriam debochar de mim ela apenas disse que eu não devo me importar com o que os outros dizem: A experiente mamãe entrando em cena com mais uma de suas lições de vida.
Pior que a Letícia já acatou a oportunidade e falou, entre risos:
“Uma abelha picou seu lábio, Nara? Tá inchadinho aqui no canto.”
Ao que Loraine respondeu?
“Figueiredo... me morde?”
E Andressa deu um jeito de expulsa-la, dizendo:
“Sai daqui se não eu vou rasgar sua cara!”
E quando Letícia saiu, ela me abraçou e tentou me consolar:
“Não é por nada não amiga, mas se eu fosse você ficava dentro do banheiro toda a vida, até a morte.”
Apesar de que suas palavras não são assim, tão confortadoras. Só faltou a Rebeca ali, mandando eu me matar.
Uma notícia boa é que o filme de ontem foi maravilhoso, era uma comédia romântica, uma pena que o João tenha pegado no sono logo no comecinho. O coitadinho está enfrentando os primeiros meses de aula numa escola de verdade, apesar de que já está na hora de ele ver como o mundo é cruel.
Caraca, o professor Lucas acabou de exigir os exercícios prontos de mim, melhor eu parar de escrever!!!

Ainda na sexta, após o intervalo

As aulas anteriores foram de Informática, que é uma das minhas matérias favoritas, afinal, a professora Carlota tá careca de saber que sacamos tudo de computador, então, a aula é de grande serventia para atividades pessoais, como por exemplo, fazer a pesquisa de história, bater papo no MSN, entrar em sites de estética, fazer download de uma música, e coisas do tipo. No meu caso, que sou viciada em sites de relacionamento, mato o tempo atualizando meu orkut e meu twitter.
Infelizmente, a aula que me encontro agora é o terror. É como cair da nuvem num chão áspero, de concreto. Apesar de que, no meu conceito, química e física superou o horror da matemática, afinal, o professor Franco é super inteligente, ele explica tudo tão claramente que as coisas até parecem que é fácil e simples, mas quando chega a parte dos exercícios eu vejo que não entendi nada.
Já disse para minha mãe me levar ao médico, isso não é normal.
Enfim, vamos ao que interessa. Assim que me reuni com as meninas durante o intervalo, elas vieram com a seguinte ideia pra cima de mim:
“E aí Nara, com que roupa você vai à festa?” Perguntou Andressa.
“Que festa?” Boiei.
“A festa do Maurinho, todo mundo vai estar lá.” Explicou Rebeca.
O Maurinho é um mauricinho mega popular. E a Lô já pegou ele (afinal, qual menino da escola que a Lô ainda não pegou?), o que garante a nossa entrada na festa. Não sei como, mas a Loraine tema a incrível habilidade de ser amiga dos ex dela.
“Ah, e vai ter tequila” Disse ela, com aquele olhar de sapeca.
Ok, só tem um detalhe: Lembra que eu disse que não faço muito o tipo festeira? Pois é, eu não sei dançar e acho que nem tenho roupa de festa. Por que, tipo, as festas do Maurinho são como uma balada, então eu não posso pagar mico. Ai meu pai, com que roupa eu vou?!
“Nara... me morde!” Exclamou a Lô.
“Não se preocupa amiga, nós vamos dar um jeito em você.” Consolou-me Andressa.
Se não fosse por elas.

Sexta (nossa, como esse dia custa pra passar!), 23 horas

Putz, não consigo pegar no sono. Tô ansiosa para o sábado, confesso. Nem tenho novidade para contar, estou escrevendo á toa mesmo.
O que eu fiz hoje? Além de limpar a casa e fazer meus deveres, como faço diariamente, fui buscar meu irmão na escola e passei a tarde inteira jogando vídeo game com ele. Adoro jogar com meu irmão, pois ele é bom em jogos de luta, mas eu sou melhor nos de corrida, então acaba sendo divertido.
Sabe qual o lado ruim de eu ficar ansiosa? Eu como. E isso realmente não é bom, pois ataco tudo o que está na geladeira. Como estou indo fazer agora.

9 de maio, sábado, após o almoço

Acordei pensando na roupa que irei usar a noite, mas mesmo que tenha me decidido, acho que na hora em que vestir vou querer mudar tudo e assim, darei início ao processo de esvaziar o guarda-roupa. Ás 5 irei tomar meu banho. Das 6 ás 7 vou me vestir, escolher o que calçar (este eu deixo por último) e colocar os acessórios. E então vou jantar para depois passara maquiagem. Aí vou esperar – pacientemente – as meninas chegarem, por volta das 22 horas.
Geralmente, o momento de se arrumar era um pouco pior. Isto por que a opinião das minhas amigas tinha grande importância, então, todas vinham para a minha casa, depois todas íamos para a casa de Andressa, e assim por diante. Isso levava o dia inteiro.
Nesse momento, estou ouvindo música pelo fone do celular. Para falar a verdade, estou sempre ouvindo música, de preferência pop. Mas é que, agora, estou tentando me concentrar na eletrônica e um pouco de funk, pois é o que vai tocar na festa.
Uma das coisas que me anima é que hoje é sábado, ou seja, dia de dar banho no Puf. E ele está mesmo precisando de um banho. Quem mandou não sair do meu colo enquanto eu lanchava? Derramei algumas gotas de caramelo no seu pêlo e acho que agora vai custar para sair. Mesmo assim, o momento de banhar o Puf é simplesmente maravilhoso.

Ainda no sábado, 21 horas

Só estou passando para me despedir, faz meia hora que as meninas estão me esperando lá na sala, apesar de que eu sei que elas estão se divertindo com as panquecas que minha mãe preparou e com as insanidades do João.
Minha mãe disse para eu voltar antes das duas, e tenho certeza de que vai me ligar a todo instante. A não ser que eu desligue o celular...
Vou nessa, antes que roubem meu irmão e meu poodle de mim. Amanhã eu conto como foi.
Beijos



10 de maio, domingo, acho que é umas três da tarde, sei lá

Minha cabeça ainda tá rodando. Não sei ao certo o que tomei na festa de ontem, mas não me fez muito bem. Mau me lembro do que aconteceu durante a festa. Só sei que, de repente, me senti leve e alegre. Sei que a Lô beijou pacas, a Beca dançou a noite inteira e a Andressa ficou ao meu lado perguntando de 5 em 5 minutos “Nara, você está bem?”. Sei também que conversei com um garoto... ai que mico. O cara que se mudou para minha rua, era ele!
Ok, estou me lembrando, vamos lá. Lembro que nossos olhares se encontraram. Lembro que fui pra pista dançar, ou melhor, tentar dançar, achando que chamaria sua atenção assim. E pelo jeito deu certo, pois ele sorriu para mim. Epa. Ele sorriu para mim ou estava rindo de mim? Não lembro. Mas lembro que ele cochichou algo para a Andressa, que me puxou e me apresentou para ele.
Preciso ligar pra Andressa. Preciso ligar pra Andressa! Já volto

Ainda no domingo, 2h40 da tarde (confirmado)

Aquela hora não era nem duas horas.
Conversei com a Andressa. Sim, ele lhe pediu para nos apresentar um ao outro! Isso é demais! Mas não conversamos muito. Quer dizer, acho que só eu falei.
As meninas - com exceção a Loraine que saiu com um cara, não se sabe quem – me trouxeram para casa. Rebeca estava completamente sã, parece até que não colocou um pingo de álcool na boca.
Não estou com a mínima vontade de ir para a escola amanhã. Meu Pai, todo mundo estava lá, todo mundo deve ter me visto naquele estado!
Apesar de que não fui a única a ficar mal. A Andressa me disse que é normal as pessoas beberem, que teve um garoto que até vomitou.
Quando cheguei em casa levei bronca da minha mãe, claro. Primeiro que já tinha passado das duas. Segundo que eu estava bêbada. Lembro-me dela questionando:
“Você bebeu, Nara?”
“Não, mãe” Menti.
Deitei-me, e quando já estava quase dormindo, ouvi ela dizer:
“Você está de castigo! Pelo resto da vida! Nem pense em sair a noite novamente, nem sonhe!”
Ainda estou deitada na cama. Estou procurando algo para assistir na televisão e enrolando o pelo do Puf no dedo. Ele não parece muito a vontade com meu braço prendendo-o contra o meu corpo. Acho que vou tentar falar com as meninas.

Meia-hora depois...

Mentira, não fiquei tanto tempo assim no telefone. Tá, fiquei.
O celular da Loraine está desligado. Falei com a Rebeca, ela estava preocupada comigo, perguntou se eu estava bem e tal. Ela bebeu mais do que eu.
“Mas eu dancei e bebi bastante água, para eliminar o álcool do corpo, você não! Você precisa tomar mais cuidado Nara, não pode pegar bebida dos outros assim, podia ter acontecido alguma coisa!”
Blá blá blá. Odeio quando ela da uma de que é minha mãe. 

11 de maio, segunda-feira, aula de Português

Não dá pra conversar muito durante essa aula, já que a professora Fabiana é uma mulher muito observadora que adora tirar pontos dos alunos. Ela também gosta de te pegar de surpresa. Tipo, ela está dando início a correção das atividades da semana passada, aí ela aponta para você do nada e ordena “Você! Qual a resposta da letra B da questão 7?!”. Ela me dá medo.
Pior que tem duas aulas com ela. O jeito é conversar por sms.
“Você arrasou ontem! Nunca te vi dançando tanto! E quem era o gatinho que estava com você? Afinal, desde quando você fica com caras mais velhos?” Mensagem da Lô.
Expliquei para ela que ele é o cara que se mudou para a minha rua há pouco tempo e perguntei onde ela se meteu.
“Saí com o Aluísio, do 3ºF” Ela respondeu.
“E aí?”
“Ele é uma verdadeiro babaca.”
Preferi não questionar o porquê. Normalmente, todos os caras com que ela saiu ultimamente são babacas. Um porquê não quis levá-la para uma festa na qual ele tinha entrada VIP, outro por não ter pago a sua parte num restaurante, outro por ser tão dócil e sensível o tempo todo. Não dava para saber que tipo de homem a Lô quer.
E a conversa parou aí. Ela costuma se abrir muito, sabe? Mas mais cedo ou mais tarde ela vai acabar contando.
Depois a Andressa nos contou em detalhes uma receita caseira que ela aprendeu com a avó e só.
A próxima aula vai ser de geografia. O professor Marcelo é um cara que leva a matéria muito a sério e exige o máximo de atenção de nós, então nem posso pensar em escrever no diário. Ele costuma dizer que a geografia é mais importante que todas as outras matérias. Aliás, acho que todo professor que ama a profissão tem essa fascinação por sua matéria.

Ainda na segunda, 12h10

Daqui 5 minutos iremos para casa.
Hoje no intervalo eu e as meninas fizemos um piquenique e alguns garotos se juntaram a nós. Entre eles, Marcelo deixou claro que quer ficar comigo de novo (mas minha cabeça já está em outro cara), Maurício ficou dando em cima da Beca (quem cara de pau, paquerando uma garota mais velha!) e o Aluísio comeu metade dos salgados, para a infelicidade da Lô. A Bárbara ficou nos olhando do outro lado do pátio com os olhos carregados de inveja. Acho que ela queria participar do pique.
Na aula de biologia, assistimos um filme educativo para rever o sistema reprodutor feminino e masculino. Achei super nojento.
Por último, fizemos alguns experimentos mirabolantes com a professora Tatiana no laboratório químico. Costumamos dizer que preparamos poções nessa aula. A Tati é meio gótica.
Estou escrevendo agora porque sei que depois não vou ter tempo, pois hoje vou buscar o João na escola e passar o dia com ele enquanto minha mãe vai trabalhar.

Segunda ainda, 13h30

Fui no mercado comprar uns miojos para almoçar com o João e adivinha quem eu encontrei? O garoto da festa, o tal de Douglas!
Tipo, eu estava passando minhas compras no caixa quando avistei ele descendo da moto e entrando no marcado. Senti meu coração subir pela garganta, meu Deus, como ele é lindo! Fiquei tão nervosa que não sabia se devia ou não ir falar com ele e...
Lógico que não fui. Não tive coragem, vim direto para casa. Ai, como estou envergonhada por não ter dito nem um oi! Como eu sou tonta, eu devia ter ido falar com ele, devia! As meninas vão me matar, nem sei como vou contar para elas.
Acho que vou deixar pra contar amanhã, quando formos no shopping assistir um romance super legal que está em cartaz.
Deixa eu ir se não meu irmão vai morrer de fome.
Um beijo!

12 de maio, terça-feira, aula de português

Estamos fazendo a leitura de um conto de Clarisse Lispector, muito interessante por sinal, mas minha cabeça está vagando em outras reflexões.
Amanhã será a prova de biologia, e estou ralando de estudar. Mas ainda não é aí que a mente está.
O Marcelo não está mais afim de mim. Adivinha o porquê? A vaca da Letícia inventou umas conversinhas pra arrumar intriga. Eu ainda mato essa menina. Faria isto no intervalo, mas lembrei-me do aviso do diretor (Na próxima você vai levar suspensão!), então por enquanto só posso fuzilá-la com o olhar. Ah, mas eu ainda pego ela!

Terça ainda, 19h

Ai que ódio.
Quando chegamos no shopping os ingressos para o filme romântico que iríamos assistir tinham se esgotado e as meninas me obrigaram a ver Renascido do Inferno!
Eu odeio filmes de terror. Odeio porque depois fico martelando aquelas cenas grotesca na minha mente.
Também odeio filmes de suspense que tem suspense demais para nada. Sou um pouco impaciente, sabia? Por isso não curto muito ler.
Por que não assistir uma comédia ou um romance? Não, vamos ver o sangue ser derramado de um corpo inocente e lambido por um bode de olhos vermelhos.
Por que elas fizeram isso comigo? Por quê?
Até tentaram me reanimar entrando numas lojas para comprarmos algumas peças de roupa, mas não dá, só vejo chifres e dentes pontiagudos.
Ai que ódio.

13 de maio, quinta-feira, 9h30

Estou em casa. De castigo.
Levei suspensão e só vou poder voltar na escola segunda. As meninas também levaram suspensão. Amanhã vamos para a casa da Andressa para estudar: só assim pra mamãe deixar eu sair de casa. Ela me deu o maior sermão (fala sério!). Culpa da Letícia, tinha que ser.
Tenho tenta coisa pra te contar que nem sei por onde eu começo! Ontem não deu para escrever, eu estava muito nervosa e emocionada. Eu vi ele. Nos falamos e trocamos telefone. Calma! Vou contar tudo, tim tim por tim tim.
Ontem eu fui cheia de preguiça para a escola. Quando encontrei as meninas na entrada me surpreendi com Loraine e Andressa cercando a Rebeca que estava com um vermelhidão feio no rosto.
“Caraca Beca, o que foi isso?!” perguntei.
“Ah, Nara! Nem te conto! Só sei que vou rasgar a cara daquela Letícia Figueiredo!” choramingou ela.
“O que ela fez? Ela te ba-bateu?” questionei ansiosa.
“Pior, minha mãe me bateu!”
Aí eu entendi tudo. A mãe da Beca, dona Lúcia, é uma mulher conservadora que não digere o termo “ficar”, pra ela sua filha tem que ser menina de namoro e casar virgem (virgem é que ela não é, mas dona Lúcia não sabe).
“Ontem, quando saímos do shopping, eu encontrei o Maurinho e...”
“Beca! Sua papa-anjo!” lhe repreendi, entre risos.
“Ah, foi só um beijinho. E pra sua informação, ele beija muito bem!”
A Letícia aproveitou o momento e bateu umas fotos e enviou pra dona Lúcia. Cachorra! E coitada da Beca, ela quase nunca fica com alguém!
O ódio subiu na minha cabeça. Por que é que aquela garota nos inferniza tanto? Claro que a Loraine não ia deixar barato, ela anunciou pra quem quisesse ouvir que ia ter briga no recreio. Somos verdadeiramente amigas: uma defende a outra.
E não deu outra: a Bárbara entrou no meio pra defender a irmã. Acredite, aquela garota tem uma força danada. Foi puxão de cabelo pra lá, tapa na cara pra cá e... Resultado: diretoria, 3 dias de suspensão. Pior: minha mãe me proibiu de ler revistas, comer chocolate e nada de net. Droga!
Mas quando cheguei em casa, ante de contar a ela todo o babado, pedi para que me deixasse ir ao mercadinho, afinal avistei pela janela que o Douglas estava saindo com sua moto, e ele só podia estar indo lá, não é mesmo?
Dito e feito!

Quinta ainda, 13h

Tive que parar de escrever para ajudar minha mãe com o almoço. Fizemos uma macarronada deliciosa. Bem, continuemos.
Quando cheguei lá, andei o mercado inteiro e não lhe vi. Claro que eu tinha visto que ela estava indo naquela direção, então a conclusão que cheguei foi que ele já tinha ido embora.

Final

Era uma festa surpresa! Também, tola eu, achando que deixariam meus dezesseis anos passarem despercebidos. Juro que senti um friozinho de pura tristeza no coração, mas ele se aqueceu no momento em que acendi as luzes e vi todos ali, a festa armada para me receber. Emocionada, saí abraçando todo mundo, mal deixando que cantassem os devidos parabéns.
"Com quem será! Com quem será! Com quem será que a Nara vai casar!"
Sorri vergonhosa para Douglas, sabia que a música era pra gente. Soprei as velas, a mente estava a mil para pensar em qualquer pedido então não me dei esse privilégio. As pessoas a minha volta começaram a me aplaudir, estavam todos ali: primos, tios e demais familiares, amigos, vizinhos e conhecidos. Olhei risonha para todos em volta da mesa, esperando ansiosamente pelo seu pedaço de bolo. Para mim não somente os três primeiros pedaços eram para pessoas importantes, deixei isso bem claro, estava feliz e grata por todos terem comparecido, e pelo menos os dez primeiros pedaços distribuídos eram especiais.
Minha mãe sorria com carinho, meu irmão não tirava os olhos da cobertura de chocolate sobre o bolo, meu namorado passou o braço em volta do meu ombro. Minhas amigas estavam de frente para mim, usavam suas melhores roupas e pareciam  bastante alegres. Loraine ria a toa, por tudo e por nada. Rebeca me olhava na expectativa. Andressa também sorria, mas mantinha o olhar fixo num ponto. Segui seu olhar e deparei-me com Douglas, que sorria de volta para ela. O friozinho no coração voltou a me perturbar.

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