Retratos da Vila Real #1

Vamos chamá-la de Silvia, uma das personalidades presentes na Vila Real, em Várzea Paulista/SP. Trinta e sete anos, três ou quatro filhos, casada a nove anos. O pai era professor de matemática, tem casa própria na Vila Arens, um bairro bom de Jundiaí, estudou no Divino Salvador, escola particular. A mãe criou os quatro filhos sozinha depois que ele se entregou ao alcoolismo e largou a profissão.

Silvia cresceu com raiva do pai. Não entendia por que ele fizera isso com a família. Passou a odiá-lo e só lhe perdoou quando ela mesma conheceu o vício. “Coitado!” pensa ela, hoje. Começou a dez anos atrás, ela já era mãe. Hoje as crianças são criadas pela avó, que as trata com carinho sem nunca deixar de se preocupar com a filha.

“O mais longe que cheguei foi seis meses... Fui parar em Porto Alegre, mais perto da Argentina do que de casa”

Até convida ela para ir à igreja. Silvia acredita em Deus, toda a sua família é Testemunha de Jeová, pode lhe dar essa base religiosa. “Só Deus na minha vida”, diz ela, desolada. E completa: “Ele me ama muito...” se não num estaria mais aqui, quis dizer, mas omitiu.

Conheceu Júlio à procura de drogas, com uma amiga. Ele poderia lhe fornecer algum suprimento. Três anos depois, estava grávida, novamente. Apesar do filho não ser dele, Júlio aceitou cuidar da criança, que Silvia chama de “nenê”. Às vezes, Silvia sai para “fazê uns corre” (SIC) para usar drogas e não volta tão cedo. Já passou semanas, até meses fora de casa, sem dar sinal de vida. “O mais longe que cheguei foi seis meses... Fui parar em Porto Alegre, mais perto da Argentina do que de casa”, conta ela. “Ele é um doido caseiro, eu sou uma doida rueira”, completa.

“Já consegui sair com mais de dez peças de picanha do mercado”

Juntos, eles dividem as contas da casa, cada um a seu modo. “Sempre fui muito boa nos furtos”, diz ela. Dinheiro não era problema, comida também não. “Já consegui sair com mais de dez peças de picanha do mercado” orgulhou-se, e desta vez não foi pega. Mas, num caso recente, acabou presa. Hoje, Silvia tem receio de roubar: “Tenho medo de voltar pra cadeia”. Nem neste momento a mãe esqueceu-se dela, foi lhe visitar e tudo. Com carinho, ela fala do amor que tem pela mãe.

Quando questionada sobre sua experiência de trabalho remunerado, relata que passou por muitos serviços, mas nunca ficava muito tempo em cada um. Trabalhou em firmas e num restaurante. “Depois que você entra para as drogas é difícil se adaptar”, não dá pra ter uma rotina. Mas Silvia nunca recorreu à prostituição, nem quer. “Isso eu não admito”, sinto firmeza na sua voz.

“Uma vez minha mãe me encheu de pau, dos pés à cabeça. ‘Se o pau for me curar, bate mesmo’, eu disse pra ela”

Dez anos nesta estrada, mas a esperança de sair dela ainda está presente em seu coração, seja por meio da religião ou com a ajuda da família. “Uma vez minha mãe me encheu de pau, dos pés à cabeça. ‘Se o pau for me curar, bate mesmo’, eu disse pra ela” (SIC). Silvia consegue ficar, no máximo, três dias sem usar drogas. Mas, quando começa, não consegue parar. “Essa coisa de fumar um, é mentira! Eu não acredito. Quando você experimenta, a primeira vez, você já sai fora de si. Não é mais você”.

Cabelos crespos, curtos, os lábios estourados, já perdeu os dentes da frente. Mas ela não é magricela, tem olhos grandes, muito bonitos. Evita o uso de gírias e fala com propriedade sobre a família, sobre o Deus que conhece e cultua. Talvez, a única pessoa capaz de salvá-la é ela mesma, ela só precisa perceber isso, antes que seja tarde demais.

Obs. Os nomes reais foram omitidos para preservar a identidade dos entrevistados.

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