Memórias de Samara - Capítulo 1


Era quase sete horas quando eu e Sofia chegamos da escola. Meu irmão, Maycon, estava no primeiro ano do ensino médio e estudava no período da manhã, de modo que já estava em casa. Sim, em casa, e não na rua jogando bola como qualquer garoto normal. Ele preferia estudar a maneira como os planetas se alinham ou o processo de transformar areia em vidro em seu quarto. 

- Mãe, cheguei – avisei. 

Minha mãe estava sempre em casa. Ela era uma manicure de residência, o que quer dizer que quando suas clientes não vinham em casa, ela ia até a casa delas. Parece meio pobre não ter seu próprio salão cor de rosa com um painel escrito “Rose Manicure”, mas no meu bairro as pessoas se sentiam mais acomodadas sentadas no sofá de casa enquanto fazem as unhas assistindo o canal de fofocas sobre a vida nos famosos na televisão. 

Sofia jogou a mochila em cima do sofá e cumprimentou a senhora Morato educadamente, depois se encaminhou para o seu quarto com um livro debaixo do braço. 

- Garotinha mimada e sem graça, tem apenas seis anos e se comporta como se já fosse mulher. Que tipo de criação essa pirralha esnobe recebe? – disse a senhora Morato, em um tom que eu nunca tinha ela ouvido usar antes. Enruguei a testa quando olhei para ela, afinal estava sorrindo e parecia que só eu tinha notado seu comentário maldoso. 

- Sofia, leve sua mochila e faça o dever de casa. O jantar está quase pronto, só vamos esperar seu pai chegar. – Falou minha mãe com uma voz monótona, estava concentrada demais no dedão do pé da senhora Morato. 

- Olá, Samara. Está tudo bem? – questionou-me senhora Morato, e só então percebi que continuava lhe encarando. 

Fiz que sim com a cabeça e voltei à atenção para meus deveres de casa do dia. Era uma quarta-feira e tive aulas de história, geografia e matemática. Eu detestava estudar. Sofia voltou para a sala com um ar entediado e pegou sua mochila. Ela não tinha dificuldades nenhuma para fazer seus deveres, lia tanto que se podia dizer que estava um pouco mais adiantada do que a turma de sua classe. 

- Como foi a prova de matemática, Samara? – perguntou minha mãe, sem desviar os olhos dos pés da senhora Morato. 

Ah, não, eu sabia que ela perguntaria sobre isso. Ao contrário dos meus adoráveis irmãos, eu era uma negação na escola, principalmente quando se tratava de números. Mas hoje parecia ter sido muito pior. Apesar de me esforçar ao máximo, não consegui me concentrar na prova. Ficava lendo os números em voz baixa tentando raciocinar, e toda hora a professora chamava a minha atenção dizendo-me para ler calada. Eu estava aflita, pois sabia que não conseguia ler em pensamento porque eu não conseguia ouvir meu próprio pensamento, se é que me entende. Sabe quando você pensa em milhões de coisas ao mesmo tempo e não consegue prestar atenção no que lê a sua frente? Então, era assim que eu me sentia. 

- Acho que fui bem. As aulas de recuperação estão me ajudando bastante. – menti. E no mesmo momento percebi que minha mãe sabia que eu estava mentindo. 

Não que ela tenha feito algo para eu perceber, manteve uma expressão neutra quando levantou seus olhos para mim, mas eles lhe denunciaram. Quando percebeu que eu lhe olhava de volta, baixou os olhos rapidamente para os pés da senhora Morato. 

- Prontinho, dona Neusa. – minha mãe sorriu para a senhora à sua frente e pegou um caderninho com capa estofada ao seu lado, fazendo somas mentalmente. – Sua conta está em trinta e cindo reais, vai quitar agora? 

Apesar de fazer unhas não ser um negócio lucrativo, minha mãe se dava ao luxo de deixar suas clientes pagar quando quisessem. A senhora Morato fazia seus pés toda semana por causa da unha do dedão que sempre encravava, mas ela só pagava no final do mês. 

Antes que ela desse sua resposta, me dirigi à porta e lhe abri para que um homem alto e magrelo entrasse. Ele era meu pai. Sorri abobada e joguei meus braços em seu pescoço, estalando um beijo em sua bochecha. 

- Oi, querida, tudo bem? 

Senhora Morato passou por nós e foi-se embora sem se despedir. Minha mãe já estava na cozinha dispondo os pratos na mesa. 

- Maycon! Sofia! Venham jantar! – gritou ela. 

- Rose, precisamos conversar. – disse meu pai, baixinho. 

Sentei-me à mesa e aguardei o restante da família fazer o mesmo. Maycon se sentou ao meu lado, os olhos baixos para o prato. 

- Oi, Maycon. – sorri timidamente. 

Ele olhou para mim e deu meio sorriso, depois encarou o ensopado em cima do fogão meio nervoso. Ele evitava falar comigo, e eu achava isso um tanto desconcertante, afinal, parecia mais um estranho do que um irmão. Mas eu podia compreendê-lo, afinal, estava com aquele olhar de novo. Olhos de garoto apaixonado, que fazia sua íris parecer mais escura. Ele não queria que ninguém soubesse. Os cabelos emaranhados cor de bronze entregava que estivera deitado em sua cama pensando bobagens esse tempo todo. 

Ainda me lembro de quando eu era mais jovem e Sofia ainda era um bebê. Ele brincava comigo o tempo todo. Esse tempo parece ter ficado num passado distante. Desde que sua cara encheu de espinhas, ele parecia outra pessoa. 

Mamãe e papai irromperam na cozinha e pelo rosto deles percebi que não estava nada bem. 

- Sofia! – gritou minha mãe, mais uma vez. 

Sofia finalmente apareceu e se sentou à mesa, pegando seu prato. 

- Já não disse para vir quando eu chamar? 

- Calma, mãe, estava só acabando um capítulo. 

Sofia adorava ler romances inapropriados para sua idade e guardava a lei de nunca interromper uma leitura no meio de um capítulo, vivia com os cabelos presos num coque e tinha que usar óculos de descanso para não piorar a vista. Mamãe estava brava e pouco se lixava para suas leis. Acho que ela e papai discutiram de novo. 

Começamos a comer silenciosamente ouvindo o som do noticiário vindo da TV. Assoprava minha sopa antes de levar cada colherada à boca e prestava muita atenção no prato para poder separar os legumes que eu não gostava. 

- E daí que o chefe está recrutando novos operários? Josiel é experiente e está nessa empresa há mais de cinco anos. Não vão demiti-lo. – disse minha mãe, referindo-se ao meu pai. 

Levantei a cabeça para ver com quem ela falava, mas todos pareciam envolvidos em suas sopas, inclusive papai. Voltei a comer. 

- Como se a profissão de manicure pudesse sustentar a família caso eu ficasse desempregado. Temos que ficar com os olhos abertos. – resmungou papai. 

Dessa vez não levantei a cabeça, certa de que não era da minha conta. 

- Não sei por que essa neura! Está apenas com quarenta e cinco anos. Não é um velho. Não é mesmo. – minha mãe fungou. 

- E o futuro das crianças? Se sacarmos mais algum dinheiro da poupança não sobrará quase nada para eles fazerem faculdade. E quero que meus filhos estudem para não ser como eu e Rose. 

- Eu acho que está na hora de Maycon arrumar um emprego. 

Eles pareciam falar mais alto, como se estivessem perdendo a paciência. Eu detestava discussões na hora do jantar, mas Sofia e Maycon pareciam não se importar. Sofia estava absolvida no caso de Conde Luís e Madalena e Maycon comia apressadamente para voltar ao quarto. 

- Parem! – gritei. – Por favor, não gosto quando vocês discutem. Papai, você não vai ser despedido. Mamãe, pare de fazer unhas fiado. Eu não aguento mais isso! 

Eles me encararam com uma expressão de choque no rosto. Aos poucos meu nervoso foi se dissipando e dando lugar à angústia. Detestava quando eles me olhavam desse jeito. 

- Ah, não. Eu fiz de novo, não fiz? 

E, pelo olhar de pena de mamãe, percebi que fiz. 

- Vocês sabem que eu não consigo evitar. 

De repente, minha mente se inundou de comentários sobre a novela das nove que de repente todos pareciam achar muito importante. Tudo isso para que eu não prestasse atenção com o que eles realmente estavam preocupados. 

Ah, sim, eu podia ouvir os pensamentos deles.

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