Bate Forte o Coração LGBT

Houve um período que eu tomei conhecimento de uma editora que publicava romances LGBT gratuitamente no intuito de fortalecer a cena na área, então, além de pensar em novas histórias dentro da temática, também pensei em incluir um romance lésbico no meu projeto de livro "Bate Forte o Coração". O papel caberia à uma nova personagem, Evelyn, bissexual declarada, prima de Andressa, melhor amiga de Nara, protagonista do romance escrito em formato de diário.

No início, Nara morre de ciúmes de Evelyn. Mas as duas começam a se dar bem e Evelyn se apaixona por Nara.  Nara também gosta dela, mais do que do seu namorado. Mas se preocupa com a reação das amigas e da família.  Um dia elas se beijam, e não restam dúvidas de que uma está apaixonada pela outra. Nara recorre a Loraine, que conta que já beijou mulheres, mas que nunca passou de curiosidade e atração física.

. . .

Liguei para o Douglas e disse que a gente precisava conversar. Quando ele veio, pedi que não descesse da moto porque o que tínhamos para falar seria breve. Naquele momento, parece que todo receio se foi e eu só conseguia ansiar pelo momento em que me veria livre dele. 

“No início foi tudo lindo, não foi? Mas depois... Quando eu te conheci melhor... Quando você me mostrou quem você realmente era... Aí tudo ficou estranho, tudo perdeu o sentido. Eu me apaixonei pela imagem que fiz de você, mas na realidade nunca te amei. Esse relacionamento não dá mais certo.”, comecei. 

“Nunca deu, Nara. Porque você é essa garotinha infantil e mimada. O dia que você amadurecer vai entender o que estou te dizendo agora. Ah, se você aprendesse a me ouvir...” 

“Ouvir você? Você quer que eu me afaste das minhas amigas, quer mudar meu jeito de me vestir, meu jeito de pensar, quer escolher até do que eu devo gostar! Eu não quero te ouvir, Douglas. Eu quero ser eu mesma.” - Neste momento eu já estava com lágrimas nos olhos. Não queria, não queria mesmo que suas palavras rudes me atingissem assim, mas é impossível. 

“Por isso você está terminando comigo? Para seguir seus impulsos?”, perguntou ele, zombeteiro. 

“Também. Mas, na verdade, eu me apaixonei por outra pessoa.” 

“Ótimo. Deixa eu adivinhar: Um garoto da sua escola, viciado em videogame, que fuma maconha e namora aquela tal de Letícia Figueiredo. Acertei? Não é esse tipo de cara que você... Fica?” 

“Pra sua informação, eu a Lelê voltamos a ser amigas. E não, não é um garoto.” 

Então a tristeza deu lugar ao ódio. 

“Quem é então?” 

“Quer mesmo saber?” 

Silêncio. Encarei-o em desafio e ele me encarou de volta. Como não disse nada, prossegui: 

“O nome dela é Evelyn de Maio” 

“Uma garota? Você está me trocando por uma garota? Só podia ser mesmo!“, riu ele, atirando a cabeça para trás. E, por fim, saiu acelerando. 

Alívio: é isso que estou sentindo agora.

Talvez eu deva abrir o jogo de uma vez com a Evelyn e aguardar as consequências. Já sei: vou escrever uma carta!


Evelyn, 

Achei que o que sentia pelo Douglas fosse amor, mas não era. Sei disso porque estou conhecendo de verdade este sentimento conforme vou te conhecendo. Poderia dizer que talvez fosse só curiosidade, pois você é atraente e legal e, afinal, é lésbica. Mas não, eu sei que estou amando porque minhas amigas são interessantes e maravilhosas e eu nunca senti isso por elas. Eu nunca senti desejo por elas. 

Confesso que estou confusa. Não sei se você sente o mesmo por mim, tenho medo de me julgar mal se eu me abrir com você. Não sei qual seria a reação das minhas amigas, tenho medo de elas se afastarem de mim. E, principalmente, tenho medo da reação da minha mãe. É doloroso falar isso, mas receio que minha opção sexual pode decepcioná-la, envergonhá-la, causar angústia. Como se fosse o fim do mundo. 

É assim que as pessoas se comportam. 

Então, não sei o que fazer. Só sei que te amo e não consigo mais mentir para mim mesma. 

Nara Silva


Criei a carta acima na esperança de me sentir melhor. Claro que não vou entregá-la. Só queria que você soubesse tudo o que está se passando em minha mente e em meu coração. 

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