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quarta-feira, janeiro 31, 2018

O que fazer em Jundiaí

janeiro 31, 2018 0 Comments
Faz dois meses que eu me mudei para a cidade de Jundiaí. Apesar de morar na cidade vizinha, Várzea Paulista, há mais de dez anos, e ter frequentado Jundiaí durante todo este período, é diferente estar morando aqui. Sempre pensei que quando enfim morasse sozinha iria sair mais aos finais de semana, à noite, e voltar no dia seguinte. Mas a verdade é que, com a vida adulta, a gente não vê a hora do final de semana chegar para poder descansar. Estando comprometida, eu não vejo a hora do final de semana chegar para ficar juntinho do meu namorido.

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A princípio, culpávamos o carro, se na adolescência o problema era andar de ônibus/trem ou mesmo a pé, agora não queríamos beber e dirigir ou andar em lugares com pouca segurança. Mas então nos mudamos. Estamos perto do centro, podemos ir a pé, ou chamar um Uber. Não tem mais desculpa para não sair de casa. O preço da cerveja está caro? Falta atrações na cidade? Existem opções alternativas. E é desses espaços que eu vou falar a seguir.

Desde que nos mudamos, aguardávamos a oportunidade de ir em pelo menos uns quatro lugares diferentes, que ficava muito próximo de casa: o Mausoléu Pub e o Espaço Cultural Barravento eram dois deles. Mas um estava em reforma e o outro em inatividade. Então, num belo final de semana, além dos dois abrirem as portas com uma programação atrativa, um terceiro lugar estava oferecendo aulas experimentais: o Ateliê Casarão. Já conhecíamos o Casarão de antigos saraus. Já frequentávamos o Mausoléu desde o ano anterior. Só faltava conhecer mesmo o Barravento.

Varietè Cultural - Espaço Cultural Barravento
O maior problema desses espaços é conseguir um alvará para manter o funcionamento, já que ficam localizados em bairros residenciais e, passou das 23h, ou mesmo antes, os vizinhos já reclamam do barulho a ponto de chamar os guardas locais. Então, o Casarão por exemplo, ficou certo período fechado. E naquele final de semana, quem estava fechando as portas era o Barravento. Para encerrar com chave de ouro, fizeram uma última edição do Varietè Cultural, um show de variedades digno de palcos como o Polytheama, com capacidade de agradar um público misto e muito maior - quase não coubemos na casa de tanta gente!



Uma pena que a cidade dispõe de teatros profissionais, mas o mesmo cobra uma alta taxa de locação, além de restringir a agenda para grupos e empresas seletas. É um espaço lindo, mas monopolizado. E mesmo conseguindo pagar o preço da locação, ainda cobram entrada. Nem para ser acessível, não é mesmo? Sempre aguardamos as festividades municipais para poder frequentar o teatro - como a Virada Cultural e os festivais de dança. Neste ano, todavia, talvez eu participe do espetáculo da escola onde dou aulas de dança tribal atualmente, o Portal do Egito. E com certeza estarei mais presente na Virada Feminista Independente, uma iniciativa linda de um grupo de mulheres inquietas que querem ser ouvidas.

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Além do Varietê Cultural, o Barravento também promovia encontros de grupos de pesquisa, experimentações artísticas, ativismo cultural, cursos e oficinas em parcerias com artistas, educadores, coletivos e pesquisadores. Na programação, violadas, saraus, vernissagens literárias, cineclube, aulas regulares de dança, música e artes marciais. Ao invés de ser fechado, um espaço assim deveria é receber apoio para manter as atividades. Cadê nossas leis de incentivo?

Parte das atividades de lá migraram para o Ateliê Casarão, tal como as aulas regulares de Tai Chi Chuan. O Ateliê está localizado na Rua Doutor Almeida, 265, no centro de Jundiaí. Foi inaugurado em 2008 pelo poeta, autor e palhaço Claudio de Albuquerque, sendo um dos primeiros espaços a registrar manifestações culturais através de coletivos independentes, conforme essa matéria do JJ.

O Coisarada é um desses coletivos que fomenta a produção cultural por artistas independentes, criando oportunidades para trocar experiências, apresentar seus trabalhos e conhecer outros fazedores de cultura e suas artes. O tradicional Sarau da Coisa, por exemplo, está presente na programação da Festa da Uva. Eles também promovem o Sarau das Minas, que já aconteceu em espaços como o Sesc, o Complexo Fepasa e também no Ateliê Plano.

Falta ainda conhecermos a Locomotiva Livraria, que, pela descrição, é um espaço que reúne livros, café e cultura, localizada na Rua São Bento, 450. Tem uma matéria super bacana no jornal independente OA Jundiaí sobre o espaço.

Locomotiva Livraria

Talvez madruguemos um dia desses no Bar do Haules, já recebi muitos convites, e muito incentivo, para conhecer o lugar e agitar algumas dançarinas para nos reunirmos lá. Aliás, fui convidada para promover mais dança através do Quintal da Verinha, uma feira itinerante com sede em Jundiaí, que tem como proposta fortalecer as expressões culturais na região.

Também quero fazer um almoço zen na Casa Arauá, que está de endereço novo e tem festa de reinauguração nesta sexta-feira, com uma programação maravilhosa.

Tenho 3 anos de contrato de aluguel aqui, então vamos dar tempo ao tempo, para conhecer, prestigiar e fazer parte dos espaços culturais que Jundiaí oferece.

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A foto acima foi clicada na mostra coletiva de encadernação artesanal, livros de artista e lettering, promovida pela professora Chris Amorim da Oficina de Artes com participação de artistas convidados. Os trabalhos ficaram em exposição na Biblioteca Pública Municipal Nelson Foot ao longo do mês de janeiro. Aliás, afora as exposições, cursos e palestras com artistas, parceiros e convidados, a biblioteca vem surpreendendo ao abrir espaço para a produção de eventos alternativos e projetos colaborativos, vale a pena ficar de olho na programação :)

E você, tem algum espaço, evento ou coletivo para indicar pra gente?

quarta-feira, janeiro 10, 2018

A Descoberta do Corpo

janeiro 10, 2018 0 Comments
Já havia algum tempo que eu andava me sentindo mal, tanto física quanto emocionalmente. Não tinha ânimo para me exercitar, me sentia cansada facilmente e não estava me alimentando direito. Uma recente infecção urinária era o que me forçava a me manter hidratada e ativa. Fui para um festival de música numa aldeia esperando descansar a mente, mas não pareceu o bastante. O lado bom foi ter feito uma massagem terapêutica que no fim revelou-se muito mais do que uma solução para as tensões musculares.

Havia pelo menos 5 massagistas diferentes no espaço, cada um de uma especialidade distinta, variadas técnicas à minha escolha – bambuterapia, terapia com cristais, reflexologia. Alguns usavam uniforme, cada um tinha sua maca e uma variedade de instrumentos. Mas havia uma moça jovem, ela estendia um lenço sobre uma colchonete de ioga e abria uma caixinha de óleos essenciais, sentava-se sobre as pernas e ficava aguardando, em silêncio. Eu já vinha observando-a desde o dia anterior. Foi sua simplicidade e seu silêncio que me cativaram.

Eu nunca tinha feito uma massagem com uma pessoa desconhecida antes. Ela conversou um pouco comigo antes de começarmos, pediu que eu me deitasse de costas, fechasse os olhos e respirasse profundamente. Então, começou pelos meus pés, subindo para as pernas, seguido dos quadris, costas e pescoço, antes que pedisse que eu me virasse de frente, dando continuidade para os braços, o colo e a barriga. Tentei ficar o mais relaxada possível, mas é inevitável não tencionar algum músculo, principalmente quando a região é sensível ao toque. Fiquei muito incomodada quando ela tocou meus calcanhares, senti uma dor imensa nos quadris e uma tensão na região do pescoço.

Ao término da sessão, com aquele cheirinho de cravo pairando no ar, conversamos mais um pouco. Disse a ela que era dançarina do ventre, e que por este motivo era muito irônico que meus tornozelos e quadris estivessem lesionados, ao que ela contradisse que era exatamente por forçar demais essas regiões do corpo que elas estavam precisando de um descanso. Quanto à tensão na região do pescoço e também nas costas, apesar de eu não ter sentido nada, ela me disse que era uma questão emocional – alguma bagagem que eu estava carregando desnecessariamente. Fiquei com isso na cabeça: qual seria minha bagagem?



Precisou alguns meses para eu lidar com o meu corpo novamente. Foi num workshop de dança contemporânea. O tema era investigações coreográficas. Eu esperava qualquer coisa, menos o que tive. Ao chegar na sala, me deparei com as demais alunas, de turmas mistas de jazz e ballet, com suas sapatilhas e coques bem feitos. Me perguntei por um momento se poderia tirar as meias e o que deveria fazer com meus cabelos. Eis que chega a professora, uma senhora, com vestes simples, descalça e cabelos soltos. Naquele momento soube que através dela eu teria as respostas que eu precisava. Sentamos em círculo, ela pediu que todas ficassem descalças e começamos o aquecimento massageando nossos pés, seguido das pernas, dos braços, do pescoço... ela também pediu que nos descabelássemos e não nos importássemos com a maquiagem para que o aquecimento fosse efetivo. Durante todo esse processo, conversamos. Em seguida, fizemos uma sequência que consistia em esticar as pernas e rotacionar o tronco sobre elas sentando e deitando novamente, ora pela direita, ora pela esquerda. Depois, ao invés de ficarmos de pés, ela nos pediu que ficássemos de cabeça para baixo e olhássemos umas para as outras por baixo das pernas. Cabelos pendurados, cara vermelha, respiração ofegante, brilho infantil nos olhos. Era o começo de uma longa experiência de quebra de padrões.

Toda a aula foi trabalhada, basicamente, sobre uma única sequência que mesclava movimentos de tai chi chuan como uma forma de dança. Essa sequência foi repetida, decorada, desconstruída e reconstruída até ficar exaustivo e orgânico. Começamos trabalhando em pontos aleatórios da classe, em direções opostas. Depois fizemos uma série de caminhadas para mudarmos de lugar. Depois fomos divididas em 2 grupos, onde um executava a sequência e o outro contemplava. Então começamos a fazer exercícios com os olhos fechados. E foi fechando os olhos que abrimos os ouvidos.

A maneira como a professora lidava com a música na sala era pelo menos curiosa para mim, que era movida pelo som. Quase não tivemos música. Tínhamos uma sequência, mas o ritmo era marcado pela respiração, pisadas, urros. Nossa sequência exigia que o corpo estivesse completamente relaxado. Não deveríamos usar ponta, nem alinhar a coluna. E o objetivo maior era desequilibrar. Jogar a cabeça para trás com intensidade, sem medo. O problema é que eu tinha medo, sentia uma dificuldade enorme de fechar os olhos por completo e ficar na escuridão. Cair e me machucar.

A professora percebeu esse receio por parte dos alunos então propôs uma atividade diferente. Formamos um círculo, na verdade uma barricada. Um a um, íamos ao centro para repetir a sequência de olhos fechados. Não precisava ter medo, dizia a professora, havia pessoas olhando por nós. Eu não era do ballet ou outra dança acadêmica, eu era de danças folclóricas, populares, femininas. Deveria ser mais fácil para mim. Eu sou da dança tribal e estamos sempre nos gabando desse tal conceito de tribo. Mas fazia muito tempo que eu não me sentia tão segura quanto numa roda de pessoas desconhecidas. Não havia certo ou errado, não havia julgamentos, feio ou bonito. Era somente um corpo movendo-se no espaço. Era a preocupação com o próximo, a empatia. Era deixar-se levar, perder o controle e assim, criar a dança. Criar uma dança a partir do silêncio, do sentimento, das sensações que percorriam a pele, os braços contra o ar, os pés no chão.

Por fim, nos sentamos para assistir dupla por dupla numa expressão livre sem hora para começar nem hora para terminar. Entravámos em cena, fechávamos os olhos, percebíamos a presença do outro pela respiração. Em um determinado momento, a professora colocava uma música. Foi a mesma para todos. Sempre que eu sentia que o outro se aproximava, eu me distanciava para não colidirmos. E sempre que eu me movimentava, fazia barulho, para que o outro me percebesse. Houve uma dupla em especial que foi contra tudo isso: quando uma se aproximou, a outra deixou que se esbarrassem, e se tocaram, sentiram o corpo uma da outra. Foi lindo. E fiquei com vontade de experimentar aquilo. Me perguntei do que eu estava fugindo.

Para resumir a experiência, a professora nos pediu uma palavra. Sentimento de entrega, liberdade e emoção foram as mais ditas. Senti as lágrimas nos olhos e a garganta apertada. Eu não consegui resumir minha experiência em uma palavra. Só pude dizer que eu estava precisando daquilo.

Eu estava precisando daquilo.