Bate Forte o Coração - A amante

Nara é uma jovem moça que depois de muito sufoco supera o término de seu namoro. Mas agora que descobre que Douglas ainda lhe ama, se torna capaz de tudo para voltarem a ficar juntos, mesmo ele estando comprometido com Andressa. Juntos, eles tentam superar os desafios, sem que Douglas soubesse dos planos de Nara, sem que Andressa duvidasse da existência de uma amante.

Me inspirei em um relacionamento mau-sucedido para criar diversas situações nesta minha trilogia (por exemplo : Em "bate forte o coração" cita passeios de moto e brigas bobas devido à ciúmes; em "No escorrer de uma lágrima" Nara relata com suas palavras como foi doloroso a perda de seu amado e como é triste saber que ele tem outra ; e agora em " A amante" ela fala detalhadamente o efeito que lhe causou descobrir que o cara que ela ama e tinha grandes esperanças de voltarem vai casar e ser pai.)

Nesta história, de início pensei somente na trágica notícia que Nara recebe, todavia, enquanto escrevia a sua grande decepção, me ocorreu a ideia de ela usar e abusar de todas as possibilidades que tinha para separar os dois. Aí surgiu o título : A vítima, a fiel, a vilã - A amante.

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1

Entrei no ônibus agitada e ansiosa, mas depois de vinte minutos de viagem já me sentia sonolenta. Enquanto contemplava a vista da mata através da janela, afastando minha cortina, me pus a lembrar da Valéria, minha melhor amiga, e talvez a única.
- Promete que vai me ligar e que nunca vai me esquecer? Nunca vai abandonar a sua amiga maluca boa de cuca? – dizia ela, entre lágrimas, fazendo-me rir brevemente e me sufocando com um abraço apertado.
Três anos que moramos juntas me deixou muitas lembranças boas de bagunça e balada, coisas que agora ficará da saudade, mas que renderão histórias para a vida toda.
Senti as lágrimas virem aos olhos e me contive para não chorar ali. Aconcheguei-me no banco e me permiti cochilar com o balanço do ônibus até chegarmos ao nosso destino.

Saí de casa aos 17 anos, era uma garota decidida que me julgava experiente. Fui morar numa cidade desconhecida, levada pelo meu espírito aventureiro. Deixei amigas, família e namorado para trás. Tudo o que queria era sumir dali.
O desejo de sumir não apareceu repentinamente, houve um motivo. E o motivo não era um plano de estudos, nem tinha em mente o que estudar ao sair da cidade. Meu motivo era a traição fria e cruel que me apunhalara pelas costas.
Tinha suspeitas de que Douglas - meu primeiro e único namorado – estava me traindo há meses, mas não imaginava que seria justo com a garota que eu julgava ser minha melhor amiga.
Eu tinha uma turminha de infância, éramos amigas desde o colegial. Sempre tive ciúmes de Rebeca por ela ser uma loira muito bonita e sensual. Agradeci á Deus quando ela se mudou para a casa da avó, em Fortaleza.
Quando Douglas me disse que estava apaixonado por uma amiga minha, a primeira pessoa que me veio à mente – já que não tinha chances de ser a Beca – foi Loraine, uma ruiva sardenta muito sapeca. Mas não era dela que ele falava.
Ele se referia à Andressa. Logo ela. Crescemos juntas, compartilhávamos nossos segredos, éramos praticamente irmãs. A Andressa foi a causadora da tragédia que mudou completamente a minha vida.
Nas férias de Julho sentei-me à mesa com minha mãe e contei-lhe sobre a minha decisão de morar sozinha. Estava terminando o ensino médio e podia usar a famosa universidade de São Paulo como pretexto para sair da cidade. Era o melhor que podia fazer por mim.
Depois de passar alguns dias debatendo-me dentro do quarto, culpando-me e chorando; mamãe concordou comigo. Tantos planos foram deixados para trás! Desde a infância tinha combinado com as minhas amigas que ao crescermos moraríamos juntas, entraríamos para a mesma universidade e cursaríamos a mesma coisa.
Tive pouco tempo para me organizar até as aulas voltarem, iniciando o 4º bimestre, mas eu não me sentia nem um pouco disposta para levantar da cama. As palavras de minha mãe não me ajudavam em nada.
- Você está se tornando uma moça, Nara! Que isso sirva de lição. É bom aprender com nossos erros. Agora você tem que esquecer o passado, bola para frente, cabeça erguida!
Falar é fácil, pensava comigo, devaneando. Meus olhos castanhos claros e vívidos estavam apagados, sem brilho, inchados, sem vida, vermelhos e escondidos atrás de grossas olheiras escuras que ocultavam a garota formosa, bela e simpática que havia dentro de mim.
Sentia-me um caco, moída, despedaçada. Fui usada e jogada fora. Culpava-me pelo que aconteceu, sentia vergonha, andava melancólica e frustrada comigo mesma. O problema não estava no caso deles. O problema era eu. Como pude ser tão tola a ponto de não enxergar o que estava acontecendo diante dos meus olhos?!
Por muito tempo alimentei meu amor por Douglas. Entreguei a ele minha virgindade, amadureci para que pudesse ser uma mulher à sua altura. Ele era bem mais velho que eu, então me sentia muito pressionada para acompanhar sua mentalidade e fugir da criança que existia em meus quinze anos. Queria passar o resto da minha vida ao seu lado, acreditei cegamente em todas as juras de amor, fui iludida pelo forte sentimento que me dominada.
Quando vi a cena amarga foi como uma porrada violenta no estômago, senti ânsia e náuseas, o coração apertou dentro do peito, me sufocando. Os lábios se ressecaram e os olhos arderam, não queria piscar, não sabia o que falar, não queria me conformar. Perdi o fôlego, ou prendi o ar, não me lembro. Tudo o que consegui fazer na hora foi chorar, lágrimas doloridas e quentes escorreram por meu rosto vermelho sem que eu precisasse pensar.
Tomada pelo choque, mantive-me imobilizada por alguns segundos, longo tempo, enquanto assimilava a paixão com que estavam se beijando. A mente foi invadida por uma força inexpressível, todas as lembranças vieram à tona, todas as promessas se perderam.
O que me manteve viva foi a esperança. Bizarro. Acreditava que a qualquer momento ele entraria em contato ou apareceria me pedindo perdão. Andressa poderia me dizer que tudo não se passou de um engano bobo. E eu estava pronta para perdoar.
Mas nada disso aconteceu. Continuei definhando até o final do ano, tentava me concentrar nos estudos, focava em minha meta de passar no vestibular, mas não conseguia mentir para mim mesma, tinha perdido a vontade de viver.
Não sentia ódio de Douglas, pelo contrário, ao perdê-lo percebi como lhe amava. Tinha ódio de mim mesma, por não ter sido uma boa namorada. Se não fosse por ele, não estaria aqui agora. Ele me ensinou a levar os estudos a sério, a diferenciar o certo do errado, a colocar limites nas minhas bagunças. Ele me ensinou a ter amor próprio. O quanto me alertou quanto às minhas amigas! Dizia-me para não confiar muito nelas, e eu sempre as defendia. O próprio ajudou uma a me trair.
Como começar do zero? Apagar tudo da memória? Como agir normalmente como se nada houvesse na dor de uma separação? Parecia impossível.
O primeiro mês solteira foi como uma navalha na garganta. Ao invés de melhorar, eu só me sentia pior. Perdia meu tempo escrevendo poesias horrendas e inúteis. Férias infelizes, grande férias. Soube que Andressa e Douglas foram para a praia juntos. Filhos da puta.

Eu me pergunto indignada: Como pode ter feito isto comigo? Estou inconformada, carente e magoada, procurando alguém que me dê carinho. Sinto que dentro do peito aperta o coração. Estou solitária, isolada pela multidão. Sinto-me usada, pura solidão... Como pode? Terminar tudo de uma hora para outra, sem uma lógica explicação? Nem olhar na minha cara como se nada demais houvesse numa separação? Como pode ter me deixado assim? Depois de tudo que foi vivido, fingi não gostar mais de mim e vem terminar comigo? Parece não ter sentimento! Não vê que sofro por dentro, vivendo aquele momento, que agora ficou no passado. Isso fere qualquer um: A dor de não poder ficar com a pessoa que gostar é mais fraca que a dor de amar alguém e ter que se separar. Sinto no meu coração que tudo o que foi vivido e aprendido tornou-se desilusão. Não sabes o quanto é difícil para mim enfrentar esta situação, e não há dor maior em um relacionamento do que a dor de uma separação. É como se todo o nosso passado passou em vão, mas em mim ficou marcado o excesso de toda paixão.

Se não fosse pela Valéria, a pimentinha popular que conheci logo no primeiro dia de aula na faculdade, não sei até onde eu teria conseguido chegar nos meus estudos. Ela me apresentou novos amigos, me levava para passear, ouvia minhas lamúrias e lamentações.
Foi duro para ela aceitar essa minha decisão de voltar para a minha cidade natal, mas ela reconheceu que eu teria mais oportunidades de carreira em Santa Luzia.
Havia me formado em Veterinária, uma área bastante abrangente, mas que oferecia poucas possibilidades de crescimento profissional, principalmente numa cidade totalmente industrializada. Em Santa Luzia eu teria mais contato com a natureza e teria mais apoio para montar minha própria clínica veterinária para atender os bichinhos da região.
No momento, minha preocupação maior era adquirir experiência no ramo, já que havia feito uma poupança bem gorda ao longo dos anos para poder ser independente o suficiente para me dar ao luxo de alguns meses desempregada.
Chamei um táxi e entreguei o endereço ao motorista, ansiosa com a expectativa. Fui admirando a cidade enquanto passamos pelas ruas calmas desta, tentando notar o que mudou e o que melhorou.
Voltar para a cidade natal era emocionante e esquisito ao mesmo tempo. Sentia-me regredindo para aquele lugar tão simplório e pequeno, mas também sentia uma paz interior crescente por estar de volta ao lar.
Santa Luzia era composta por bairros rurais, somente o centro era mais desenvolvido, com comércios na avenida principal, apartamentos e um condomínio. Havia uma rua cercada por árvores que abrigava casas sofisticadas. Eu morava ali.
Com o falecimento de minha mãe, a casa ficara para mim, intocada durante todo o tempo que estive fora. Localizada na Rua dos Pássaros, a casa lembrava um chalé vitoriano aconchegante. Prendi a respiração antes de entrar, como se pudesse resgatar algo do tempo passado com este ato.
Cheirava a madeira velha. Na certa, precisava de uma boa limpeza antes de ser mobilhada novamente. Queria fazer isso sozinha, era a minha casa, precisava desse reencontro. Além disso, precisava me manter completamente ocupada, pois no fundo sabia que mais cedo ou mais tarde, ao caminhar pelas ruas da cidade, eu encontraria meu ex-namorado e sua noiva.

2

Depois de quase dois dias de serviço pesado dentro de casa, dormi exausta na minha cama nova. O que eu não esperava é que fosse sonhar com Douglas.
No início, quando terminamos, eu sempre sonhava com ele em diferentes ocasiões, misturando lembranças e esperanças, já não sabia o que era real e o que era ilusão. Naquela noite, sonhei com a imagem de uma criança idêntica a ele.
Quando acordei, ao invés de ficar pensando no sonho que tive, como fazia na maioria das vezes, lembrei-me das palavras de Andressa, que tentava justificar a traição, tornando-a ainda mais dolorosa.
Entre soluços, ela dizia sem conseguir olhar-me nos olhos:
- A primeira vez que ficamos juntos foi inevitável. Há tempo eu estava gostando dele secretamente, mas não imaginava que era correspondida. Um dia eu fui à sua casa e você não estava, então deduzi que estava na casa de Douglas e fui até lá. Ele estava sozinho, me chamou para entrar e... Eu tentei evitar, tentei dizer que não, mas foi involuntário... Não resistimos. Eu não queria perder sua amizade, Nara. Ele me disse que terminaria com você, que conversaria com você....
Mas ele não fez isso, ele enganou nós duas durante alguns meses e no final preferiu Andressa. Levantei-me, perdida em meu mundo de desilusões. Tomei uma caneca de leite e voltei a me deitar. Passei o dia assim, sem nem escovar os cabelos. Ao anoitecer, tomei um banho quente e dormi assistindo a TV.

Para colocar a minha clínica em prática eu precisava de um bom local situado num ponto estratégico da cidade. Mais de um mês se passou até meu consultório veterinário ser aberto. O local foi inaugurado com sucesso, e logo começou a aparecer clientes, bichinhos que há tempo necessitavam de assistência.
Mas minha emoção se excedeu quando Rebeca adentrou no estabelecimento.
- Beca! O que você faz por aqui?
- Ora, eu que pergunto! Você não tinha ido embora da cidade? – ela me olhou confusa, e por um momento jurei que não tinha me reconhecido.
Trocamos abraços, matando a saudade. Fazia pouco tempo que ela estava na cidade, na realidade, estava só de passagem.
- Vi a inauguração da clínica no jornal e resolvi passar aqui, não conseguia acreditar que era você! Estou tão orgulhosa!
Ora, eu não estava tão diferente assim. Tinha deixado os cabelos crescerem e emagrecido um pouco, mas ainda era a baixinha branquela de cabelos negros de antigamente. Já Rebeca, esta estava super desenvolvida, um mulherão, o busto farto e os olhos maliciosos entregando que continuava sendo a loira bonita e inteligente de sempre.
- Já falou com as meninas? – perguntou, interrompendo minha avaliação.
- Er... Loraine?
- E a Andressa, claro. – acrescentou, sem ressentimentos. - Ela me disse que vocês duas conversaram e que você aceitou numa boa o relacionamento dela com Douglas. Foi muito compreensível da sua parte, Nara. E pensar que ela matou tanta aula para fugir com o Douglas!
Rebeca riu, e eu até tentei acompanha-la na risada, mas não consegui. Qualquer respingo de felicidade havia me fugido. Realmente, se me recordava bem, Andressa estava faltando muito na escola, mas não sabia que era por causa do Douglas... Como nunca associei isso? Apesar de que, seriamente, não fora isso que me surpreendera naquele momento.
- Você sempre soube? – balbuciei, séria.
- Eu... Eu pensei que você soubesse, quer dizer... A Lô não te disse? – Rebeca ficou sem graça e comeu as palavras.
- Você sempre soube que a Andressa e o Douglas estavam tendo um caso! Eu pensei que só Loraine soubesse. Quer dizer, ela me contou o quanto Andressa chorava por estar confusa e indecisa entre Douglas e eu. Mas você, Rebeca.... Quem mais sabia? – Rebeca ficou calada, senti como se estivesse desmoronando - Todo mundo sabia! Todos me enganaram! Meu Deus, como fui tonta...
Rebeca se aproximou, tentou me abraçar, mas eu não queria que tivessem pena de mim, não queria a compreensão de ninguém. Pedi que ela fosse embora, disse que não estava legal e não queria conversar.
Mais tarde, um rapaz loiro, alto e simpático trouxe seu cachorro, um buldogue americano de pelo longo para que eu o examinasse e isso me alegrou um pouco. Os animais eram sinceros e verdadeiros. Não eram como os humanos. Deixei-me levar pelo trabalho e fui para casa sentindo-me um caco.
Preparava a janta quando ouvi a companhia tocar. Olhei pela janela e reconheci a pessoa que me chamava. Era a Loraine. O jeito era enfrentar os remorsos de cara.
- O que quer? – perguntei, esforçando-me para não soar tão grossa.
- Vim te ver. Soube pela Beca que havia voltado para a cidade... Gostaria de conhecer sua clínica, mas coincidia com meu horário de trabalho. Adivinha? Sou organizadora de eventos. Não é o máximo?
- Está tarde. Preciso descansar.
Iria me retirar, mas Loraine me impediu.
- Nara! Por favor, supera o passado! A Andressa era nossa amiga também! Você não pode culpar a todos por Douglas não estar mais com você...
- Vai ficar do lado deles?!
- Não quis dizer isso, só acho que você tem que aceitar o que aconteceu! Olha, a Andressa vai se casar em breve... Ela quer que nós três sejamos as madrinhas...
Ri. Aquilo era demais para mim.
- Então você quer que eu seja madrinha? Minha melhor amiga rouba meu primeiro amor e eu vou ser madrinha deles? – gritei. Tentei me recompor. Eu tinha que contar meu segredo, se não ela não compreenderia a minha dor. – Eu estava grávida, Lô. Eu perdi o bebê no terceiro mês por causa da falta de repouso e emoções fortes. Eu ainda sonho com a criança...
Passei dias tristes, culpando-me. Alisava a barriga como se ainda houvesse um lindo bebezinho se formando ali. Ele seria tão precioso para mim, eu cuidaria tão bem dele. Tive que fazer terapia por um bom tempo para não cair em depressão. Vivia angustiada, um desejo suicida crescendo e tomando forma. Sentia-me tão sozinha... Não queria compartilhar com a Valéria o meu sofrimento, tinha tanta vergonha... Nem a minha mãe ficou sabendo.
- Ah, Nara... Desculpa! – choramingou Loraine, jogando os braços em meu pescoço e soluçando baixinho. – Eu senti tanto a sua falta! Eu queria tanto ter estado ao seu lado!
Não me contive e entreguei-me ao seu abraço, sentindo a dor no peito se dissipar. A sinceridade presente em suas palavras me aliviou, e no lugar ficou a vontade de encontrar uma pessoa. Queria olhar a Andressa nos olhos mais uma vez antes de ela se casar com meu ex-namorado, quase pai dos meus filhos.

Apertei a companhia aflita. Andressa gritou “pode entrar”, sem noção de que era eu que estava ali. Pelo visto estava esperando alguém. Entrei calmamente, mas me ruía por dentro. Coloquei uma das mãos na maçaneta e girei, abrindo a porta com a mão escorregadia de suor. Não pude evitar olhar ao meu redor quando já me encontrava dentro da casa. Era linda.
A minha frente, Andressa usava um vestidinho, com os cabelos presos num coque elegante. À medida que ela me reconhecia, sua expressão foi se alterando. Estava chocada.
- Nara? É você mesmo?
Foi assim o nosso primeiro contato. Cara a cara, encarando as mágoas e dando chance à esperança. Meus olhos se encheram de lágrimas, desisti de forçar o sorriso. Senti um nó crescente na garganta me incomodando visivelmente. Fazia de tudo, lutava contra mim mesma para não chorar.
- Eu. Vim. Ver. A. Minha. Amiga. – ao concluir, deixei que as lágrimas me tomassem o rosto.
Andressa também chorou. Queria me abraçar, mas não sabia como dar o primeiro passo. Não sabia se podia. Quando nos demos conta, estávamos nos confortando uma no ombro da outra.
Após nos acalmarmos, tentamos conversar formalmente, falamos sobre planos de carreira, contei-lhe sobre a Valéria, a faculdade. Não falamos muito, estávamos ansiosas, parecíamos duas estranhas se conhecendo. Demorou até que eu conseguisse tomar coragem para tocar naquele assunto, falar daquele homem.
- Você devia ter me contado o que havia entre você e o...
- Eu sei. Eu errei. Mas, se houvesse contado, qual seria sua reação? Não sei se me compreenderia. Você era muito apaixonada pelo Douglas, Nara.
Ouvir seu nome era como arranhar uma lousa com as unhas bem perto do meu ouvido. Fechei os olhos. Eles queriam me contar, mas eu era uma estúpida adolescente, ignorante e orgulhosa.
- Ah, eu sofri tanto! Você sempre foi minha amiga... E eu não podia contar com você naquele momento. Sabia que não entenderia.
- Mas doeu bem mais presenciar um flagrante. Eu preferia ter ouvido tudo de vocês. Preferia ouvir a história do que ver.
Neste momento, fomos interrompidas pela campainha que tocava. De súbito, não sei como, mas eu soube quem era. Por acaso cada pessoa tem um jeito particular de tocar a campainha? Porque naquele momento eu tinha certeza de que Douglas entrava na casa.
- Amor, sou eu!
A voz grave e alegre adentrou o ambiente. Não sabia o que se passava no rosto de Andressa, não olhava para ela. Encarava o chão, aflita, não imaginava que esse reencontro seria tão difícil.
- Quem está aí?
Levantei-me e deixei que ele me reconhecesse com a cabeça baixa. Sem apresentações, sem palavras. Encarei seus tênis, o jeans largo, a camisa pegada em seu corpo másculo. Seu rosto. Pálido, me encarando esturricado, o ponto de interrogação junto ao de exclamação presente entre os olhos.
- Nara?
- Oi Douglas! Vim ser madrinha do seu casamento. – disse eu, com um sorriso que não alcançou os olhos.

3

Naquele dia completava três meses que eu estava morando na cidade. Loraine me visitava sempre que possível, e como eu e Andressa mantínhamos pouco contato apesar de tudo, era ela quem me mantinha atualizada quanto aos preparativos do casamento.
Vez por outra saíamos as três juntas para escolher o buffet, os vestidos e essas coisas. Todos da lista já haviam recebido seus convites, inclusive Rebeca, que estava morando numa cidade distante e só poderia aparecer no dia do casamento mesmo.
Douglas se mantinha distante. No início pensei que era porque queria deixar as garotas curtirem, mas até a lua de mel estava ficando por conta da Andressa. Desconfiei que talvez ele estivesse com o pé atrás, mas afastei a ideia da minha mente.
Estava conformada. Ainda guardava mágoas, ainda sentia ciúmes e dor de cotovelo, mas o importante é que eu tinha aceitado a situação. Sentia-me orgulhosa de minha humildade, outra pessoa teria acabado com a cara de Andressa e feito o impossível para o casamento sair uma porcaria.
Evitava ficar sozinha com ela, e Loraine desistiu de tentar fazer a gente ficar sozinha. Percebeu que Andressa se sentia mais desconfortável do que eu. Estávamos as três ali, reunidas, mas não era como antes. Sentia um clima tenso entre a gente, somente a Lô era extrovertida, e faltava a Beca entre nós. Definitivamente, não era como antes, e nunca mais seria.
Naquele dia, porém, algo aconteceu. Recebi uma ligação ao entardecer, enquanto ia da clínica para casa. Era Douglas. Como ele tinha conseguido meu número, eu não sabia.
- Er, oi Douglas, está tudo bem? – perguntei receosa.
- Podemos nos encontrar, Nara? – disse sem rodeios, a voz expressando sua ansiedade.
Fiquei quieta por um tempo, mas me vi questionando a hora e o local antes de me conter. Leide Café Bistrô, nove horas.
- Só nós dois, tudo bem?
Engoli em seco. Um encontro com Douglas. Ex-namorado. Atual noivo da minha ex-melhor-amiga. Só nós dois. Por um momento, fiquei ouvido o tu-tu-tu do celular enquanto me lembrava de uma cena amarga: Eu, sentada no chão do quarto, no canto da parede, com a cabeça enterrada nos joelhos, abraçando as próprias pernas, chorando compulsivamente e soluçando por ter perdido o namorado.
A imagem passou como um flash, como que me alertando para não me deixar enganar, seja lá o que ele queria. Guardei o celular desajeitadamente. Balancei a cabeça repetidas vezes, como se esse ato fosse me ajudar a esquecer o passado. Nada apagaria a dor que eu senti um dia.
Por que a sós? A pergunta martelava minha cabeça. Doía.
Fui para casa, tomei um banho de banheira, tentando relaxar. Quando saí de casa já estava atrasada, devido a demora para escolher uma roupa. Simples? Bonita? Decente? Festeira? Não sabia qual era a ocasião, então era difícil escolher alguma peça. Optei por jeans. Tudo o que eu queria era parecer natural. Minha única exigência era manter os saltos altos, não queria que ele notasse que eu tinha a mesma altura desde os 16 anos.
Será que os dois terminaram? Pensava comigo. Ou ele quer me pedir para ficar longe deles? Simplesmente não sabia.
Quando cheguei, ele já me esperava. Estava sentado à mesa, bebendo um copo de água. Estava bonito, mas parecia tenso. Alto, formoso, elegante. Ele sorriu para mim, e senti minha respiração ficar descompassada. Meu pai, como era possível ele ainda surtir esse efeito em mim?
Ao meu aproximar, ele se levantou, me cumprimentou com um aperto de mão demorado e então nos sentamos. Eu olhava o cardápio sem nada ler, esperava que ele decidisse o que iríamos comer. Mas o tempo passou e nada. Ergui os olhos e peguei-o olhando para mim. Corei.
- Você está bonita!
Droga. Eu queria estar normal! Bom, não tinha como correr dali.
Conforme bebíamos nossos vinhos, fomos ficando mais a vontade um com o outro. Ainda nos dávamos bem. Muito bem. Ele ainda era capaz de me fazer rir como ninguém. Estendi a mão e segurei meu copo, ele entrelaçou os dedos nos meus, pousando a mão sobre a minha e me fazendo soltar o corpo. Fiz menção de retirar a mão, mas ele a segurou com firmeza. Olhei seriamente para ele, dando a entender que não estava compreendendo o que fazia.
- Nara... Eu nunca te esqueci! – disse ele, e eu perdi o ar. Desespero, era isso que eu sentia.
- Então porque continua com ela? – consegui perguntar, depois de alguns segundos que pareceram eternidade. A voz saiu falha, entregando meu nervosismo.
Ele ficou calado, procurando as palavras certas.
- Ou melhor, se me amava, por que me traiu?
Fiz menção de me levantar, e quando deu por si ele começou a falar.
- Escuta! Por favor, me escuta! – ele ofegou, e não soltou minha mão. – Eu estava confuso. Tanto que não terminei com você. Minha intenção nunca foi te magoar!
Ri, o pavor tomando conta do corpo. Não conseguia me sentir feliz. Não queria.
- Está ficando louco? Me deixa! – gritei, desvencilhando-me dele e me levantando.
Todas as pessoas olhavam para nossa mesa quando me retirei do restaurante. Ao sair, sentia-me friamente vitoriosa. Nunca imaginei que teria coragem para dar um fora no homem da minha vida.
Antes de dormir, fiquei pensando no ocorrido, e só então as lágrimas me vieram ao rosto. O cara me traiu com minha melhor amiga. Precisei de ajuda profissional para superar minha perda. Durante ano, foi como se ele estivesse morto para mim. Esse mesmo cara disse-me que nunca me esqueceu, mesmo tendo se passado três anos e estando noivo daquela minha amiga. Estava ele falando a verdade? E se estivesse, então porque nunca me procurou?
Estava com sono, com preguiça de pensar. Não conseguia raciocinar. Estava confusa, mas me permiti ser tomada por uma sensação boa. Ele me ama. Ele ainda me ama. Ele sempre me amou.
Sonhei com figuras inexpressíveis, o rosto de vários garotos que beijei com a aparência de Douglas. Se eu quisesse, ele poderia voltar a ser meu, era só estalar os dedos. Se eu quisesse, podia me vingar de Andressa na mesma moeda: Roubando o seu namorado. Não, roubando não... Pegando o que era meu de volta. Sentia-me perturbada com a ideia.
Sentia uma pontada de culpa, mas a felicidade e o desejo de vingança eram maiores. Será que o relacionamento dos dois andava bem? Movida pela dúvida e pelo anseio, resolvi visitar Andressa. Era a primeira vez que lhe visitava depois do nosso reencontro.
Quando cheguei, ela estava vendo televisão. Andressa não trabalhava fora, e ao casar imagino que não teria que se preocupar com serviços domésticos, Douglas era um bom marido. Se casar.
Ela me abraçou apreensiva. Convidou-me a me sentar e me serviu um copo de água.
- E então, como vai a vida? – puxei papo.
- O mesmo de sempre. – respondeu ela, distraidamente.
Ambas fingíamos assistir à TV.
- Não esta com uma cara boa. – disse eu, e ela me olhou, séria. – Como é que é, Andressa... Eu te conheço desde pequena, sei quando algo não está indo bem... Conta.
A única coisa que não parecia bem era a expressão vazia em seu rosto. Mosca. Eu havia acertado na mosca.
- Bem... – ela não queria falar. – É o Douglas. A gente brigou outro dia. – confessou, suspirando e olhando o chão.

4

- Que chato! – fiz-me de surpresa.
Mas Andressa não se deu por convencida.
- Nara, é estranho falar essas coisas para você! É meio... Desconfortável. Desculpa. – disse ela, encolhendo os ombros.
- Tudo bem amiga, eu e o Douglas é passado. Sério. – apertei sua mão. – Por que brigaram?
Eu estava louca para saber cada detalhe. Mas ela não contou, porque neste momento ele chegou. Adentrou a sala, e o jeito como nos olhou deu a entender que achava que eu estava ali para contar tudo sobre o nosso encontro secreto. Cumprimentei-o sem demora, como se nada de mais houvesse acontecido, e ele relaxou visivelmente. Em seguida, ele se aproximou de Andressa e lhe deu um selinho.
Senti meu corpo arder.
- Oi amor...
As palavras saíram de sua boca em direção aos ouvidos de Andressa, fazendo-me arder ainda mais. Fingindo compromisso, disse que precisava ir embora. Mas na realidade tudo o que eu queria era ficar sozinha e chorar.

- Alô?
- Oi Valéria! É a Nara...
- Sua cachorra traíra! Eu te disse para me mandar e-mails todos os dias! E, olhe só, você liga depois de uma semana sem me dar notícias sua!
- Não é assim que se cumprimenta as pessoas.
- Ah, amiga, me desculpa! Sinto muito sua falta, e quero saber tudo o que acontece com você. Como vai a clínica? Está dando para cobrir as despesas? Precisa de ajuda?
- Valéria, eu estou bem.
- Mesmo? Reencontrou suas amigas? Está dando para suportar o casamento da bruxa?
- Então... É sobre isso que eu queria lhe falar.
- Humm, eu conheço essa voz melancólica... O que aconteceu?
- To confusa.
- Não!
- O Douglas me procurou, disse que ainda me ama.
- Sabia! Aquele homem não vale nada.
- Valéria!
- Ele disse isso? Com todas as letras? Você deu um tabefe na cara dele?
- ...
- Peraí... É por isso que está confusa? Você não esta cogitando a ideia de voltar para os braços dele como uma cachorrinha... Está? – Pude sentir a decepção na voz dela.
- Não sei. Acho que ele está falando sério.
- Ah, Nara, me poupe!
- Sério, conversei com Andressa. Ela me disse que os dois haviam brigado. Parece que o relacionamento deles não anda bem, mas eles querem manter as aparências. Afinal, está perto do casamento e tudo...
- Ou ele quer fazer uma despedida de solteiro. – argumentou friamente - Nara, me escuta, eu ia adorar ver essa cadela quebrando a cara e pagando com juros o que ela fez com você, ela devia ser abandonada no altar, isso sim... Mas se esse cara te amasse não estaria casando com ela. Casais brigam, isso é normal, não vai ser a primeira nem a última vez que eles vão se desentender. Além disso, devem estar tensos com a pressão do casamento, é normal ele se sentir confuso. Ele é homem.
- Você acha mesmo?
- Não se esqueça que ele já te enganou uma vez, não deixa ele fazer isso com você de novo... Se não eu vou aí dar um tiro na testa dele pessoalmente.
Era sempre bom conversar com a Valéria. Ela era a garota mais realista que eu conhecia.

O casamento sairia dali a três semanas. Mantive meu ritmo no trabalho, e procurei atividades extras, tudo para me manter ocupada e não ter tempo nem motivo para procurar Douglas. Sempre que chegava em casa, havia uma mensagem sua na minha caixa postal. Ele também me enviava e-mails. Mas eu nunca lia ou ouvia o que tinha a dizer. Não queria me envolver.
Um dia, estava eu entregando um filhote de pintcher saudável ao seu dono quando minha ex-sogra entrou na clínica. Ela me abraçou, feliz e emocionada.
- Sinto muito sua falta, garota. Se dependesse de mim, é você que eu escolheria para ser a mãe dos meus netos!
- Não fale assim, Andressa é uma boa garota, tenho certeza que ela... Netos? A senhora disse netos?
- Oh, querida, você ainda não sabe? Andressa está grávida de dois meses, descobriu na semana passada!
Senti como se uma navalha entrasse em meus ouvidos, e aquela senhora girava a navalha cada vez que proferia uma palavra. A maneira como ela falou deu a entender que Douglas e Andressa estavam mais bem do que nunca.
E eu me senti frágil e burra mais uma vez. Agora era certeza, ele iria se casar mesmo, não tinha opção. Andressa dependia dele. Ele não podia deixar o seu filho. Como pude pensar que o primeiro amor ficava para sempre? Ele se casaria com uma pessoa que não seria eu. Seria pai de um filho que não era o meu.
Infelizmente, nesse mesmo dia, ao sair do trabalho ele estava a minha espera. Tentei ignorá-lo, mas foi impossível.
- Por que não atende meus telefonas? Por que não responde meus e-mails?
- Parabéns, soube que realizou o seu sonho, vai ser pai, não é? – disse eu, sem olhar-lhe nos olhos, e continuei caminhando para casa.
- Nara... Eu não tenho culpa, juro! Eu pensei que ela estava tomando pílula... Era para ela estar tomando pílula! – falou ele, entre gaguejos, cheio de remorso e desilusão.
Parei, a beira do choro. Ela fez de propósito. Ela sabia que ia perde-lo e engravidou de propósito, para segurá-lo. Douglas me abraçou carinhosamente antes que eu pudesse impedi-lo. Não aguentei e me rendi ao seu abraço, deixando que as lágrimas rolassem.
- Melhor você ir embora. Preciso descansar.
- Não quero ir embora. – sussurrou ele em meu ouvido e, erguendo meu rosto com o dedo, disse: - Quero ficar com você.
Ele vinha em direção a minha boca, mas antes que encostasse em mim eu lhe empurrei, recobrando os sentidos.
- Não podemos!
- Podemos sim, Nara, é só você querer!
- Você é um cara comprometido. E ela está grávida. Precisa de você. – sussurrei sem necessidade de fazê-lo.
Silêncio. Limpei as lágrimas. Douglas me olhou pensativo, parecia nervoso.
- Vou me separar. Ela que seja mãe solteira. Posso pagar pensão.
- Não Douglas, a criança sofreria muito se crescesse sem o pai. E o que me garante se... Se você a deixasse... Ela poderia abortar o bebê. – justifiquei, cheia de horror.
- Mas então, como ficaremos juntos?
- Não ficaremos.
- O que eu faço?
- Me esquece.
Virei as costas e marchei para casa, decidida, faltava apenas uma quadra. Insistente como era, ele veio atrás de mim. No momento em que ia abrir a porta, ele me puxou pelo braço, quase me machucando com a força com que me segurava. Virou-me de frente para ele, os olhos escuros e rebeldes sobre mim, encostou-me contra a parede com violência, fazendo-me ofegar, e me beijou intensamente, sem opção eu lhe retribui o beijo, jogando os braços em seu pescoço e perdendo minha identidade naquele momento.
Minutos depois estávamos em meu quarto, foi como se agíssemos por impulso, nenhum movimento era mecânico, as peças de roupas foram se desfazendo naturalmente, um ansiando pelo corpo do outro. Ele me deitou contra o travesseiro, suas mãos passeando pelo meu corpo nu enquanto seus lábios desciam pelo meu pescoço, beijando e mordiscando cada parte da minha pele em chamas enquanto percorria vagarosamente os caminhos disponíveis. O contato dos seus lábios macios era eletrizante, sentia ondas de calor e energia por onde ele passava.
Sentia-me insaciável, o prazer de vê-lo satisfeito comigo era gigante. Estávamos apaixonados um pelo outro, desejando alcançar o ápice do amor juntos. Era maravilhoso e único. A tensão fez com que eu sentisse um pouco de dor quando ele me penetrou, apertei sua mão enquanto ele se movia sobre mim. Meu corpo estava todo contraído, dificultando os movimentos, então ele me pediu que relaxasse, acarinhando meus cabelos, seus lábios tocando minha nuca, seu dedo em minha boca, e eu relaxei, entregando-me àquele momento, gemendo seu nome quando ele aumentou a pressão, próximo ao auge.
Havíamos ultrapassado os limites. Mas naquele momento nada disso importava, eu estava risonha e feliz, como se ao seu lado me encontrasse no paraíso. Éramos Eva e Adão provando da fruta. E gostando. Ele me aninhou contra o seu peito e ficamos assim por um longo tempo, enquanto ele cantava uma melodia em meu ouvido, fazendo-me dormir. Não queria acordar nunca mais.
Quando despertei, no meio da noite, ele já tinha ido embora, e me senti completamente sozinha e angustiada.

5

Chorei compulsivamente. Eu sabia que o verdadeiro motivo por ter me entregado aos braços de Douglas era mais forte e mais deprimente do que simplesmente amor. Era algo passional. Eu queria me vingar de Andressa na mesma moeda, o prazer cobrindo a dor de odiá-la. Eu queria deixar para trás a sensação de ser boa ou ingênua, e parecia que o único jeito era fazendo algo ruim. Mas, agora que estava tudo feito, eu sentia vergonha de mim, nojo do meu corpo, me desprezava pela minha falsidade e pelo meu mau caráter. Sentia-se um verme. Como ela conseguiu fazer isso por tanto tempo? Por que eu não consigo sentir a mesma frieza?
As semanas se passaram, não atendi suas ligações, evitei qualquer oportunidade de contato com ele, com Loraine ou com Andressa, contendo meu desejo de procurar por qualquer um deles. Não queria que vissem que eu estava mal. Até eu fingia para mim mesma que estava bem.
Minhas expectativas estavam acabadas. Ele não gostava de mim. Nunca gostou. Estava descontente com o casamento e queria uma trouxa para descontrair.
Terça-feira, véspera do casamento de Douglas e Andressa. Não conseguia parar de pensar nisso. O telefone tocou, atendi mecanicamente e repeti as palavras com um ar profissional, como fazia todas as trezentas vezes em que o telefone tocava.
- Clínica Veterinária Cãezinhos Carentes, Nara, boa tarde.
- Podemos nos ver hoje a noite?
- Douglas? – gaguejei. – Mas... como...
- Já que não atende minhas ligações, resolvi ligar no seu trabalho de um orelhão aqui perto.
- Humm. – esperto ele. – Para que quer me ver? – perguntei, me fazendo de difícil.
- Só pra gente conversar.
- Só pra conversar? – não consegui disfarçar a ironia.
- Se você quiser mais alguma coisa...
- Não, não quero. – tentei ser ríspida, mas logo estava sorrindo – Por que, você quer?
- Você sabe que eu quero você.
Idiota. Eu era uma idiota, apaixonada pelo mesmo cara por quem me apaixonei aos quatorze anos. Fazendo joguinhos de relacionamento como se fosse uma adolescente se deliciando com a conquista e a sedução. Quem eu queria enganar? Eu era completamente louca por aquele homem.
Subi na garupa da sua moto, o coração pulando no peito, as mãos suadas. Lembro bem daquela moto. Naquele momento, deixei a emoção tomar conta e guardei o juízo em casa. Não queria desperdiçar a oportunidade de substituir a dor pelo prazer, de sentir o seu amor mais uma vez. Última vez, prometi para mim mesma. Isso não vai mais se repetir.
Combinávamos perfeitamente na cama. Um conhecia bem o corpo do outro para saber onde tocar, como tocar. Uma explosão sucessiva de prazeres: era isso que eu sentia. Afinal, fora ele quem me apresentou o sexo, quem me ensinou todas as travessuras na cama.
No fim do prazer inimaginável de estar ao seu lado, deitamo-nos abraçados, o corpo suado e o sorriso bobo no rosto. Estávamos exaustos. “Belo motel” pensei comigo. Mas já havíamos ido a lugares melhores antes. Nada daquilo se repetiria. Nunca mais. Perdida em meus devaneios, chorei silenciosamente, sem que ele notasse.
- Melhor você ir, tem um casamento todo pela frente.

O vestido da noiva era branco gelo, todo cheio, ocupando muito espaço sem necessidade. Marcava bem sua cintura, modelando o quadril e realçando seus seios no decote do tomara-que-caia em forma de coração. O corpete bem transado era coberto por pontinhos pratas, brilhante. Terminava em V, onde, em perfeita harmonia, se iniciava a saia rodada, toda cintilante, cobrindo-lhe os pés. O vel, que continha uma coroa, era feito de seda, transparente e delicado. Ele escorregava pelo traseiro avantajado da noiva e ia parar no chão, arrastando-se conforme ela entrava na igreja, segurando um buquê pequeno de rosas amarelas, amarrado somente com um laço grande e branco.
Resumidamente, Andressa estava de arrasar corações e provocar inveja em todas as mulheres que sonhavam com um casamento tradicional. Ela se segurava para não chorar e borrar a maquiagem que levou quarenta minutos para ficar pronta, levando seu rosto e sua beleza a perfeição. Os cabelos presos num coque, com poucas mechas encaracoladas pendendo para fora, deixando a mostra suas bochechas coradas. Ela estava radiante.
Era incrível vê-la assim, sempre fora tão sem graça. Andressa era o tipo de garota que apreciava jeans e camisetas básicas, cabelos soltos ao vento, pouca maquiagem, unhas bem aparadas.
Naquele dia acompanhei a noiva no jejum. Não consegui comer nada de nervosismo. Ali, na aflição de ouvir o hino de casamento e vê-la se aproximando do altar, senti o estômago dar cambalhotas, enjoada. Queria muito ter ficado em casa, mas não pude.
Ela estava realizando seus sonhos porque destruíra os meus. Desejei tudo de pior para ela mantendo o sorriso no rosto. Eu fora a despedida de solteiro do seu marido, tola. Apesar disso, queria estar no lugar dela. Queria aquela igreja, aquela festa, aquele vestido, aquelas lágrimas, aquele sorriso, aquele homem.
Será que ela não via que ele estava infeliz com ela? Que eu saiba, o amor verdadeiro é baseado em sentir satisfação por ver o outro feliz, mesmo que não seja ao seu lado. O maldito casório levou séculos para acabar. Ele havia se casado com ela, mas era a mim que ele amava. Estava certa disso. Deveria sentir-me feliz por isso?
A orquestra parou de tocar a música da desgraça, Andressa e Douglas se afastavam num carro alugado, seguindo para a lua de mel. Passariam uma semana longe.
Assim que me encontrei sozinha e inconsolável, deixei que as lágrimas rolassem e arranquei o sorriso falso do rosto. Enrosquei-me na cama e não me atrevi a levantar, se pudesse passaria toda a semana ali. Se pudesse não me levantaria nunca mais. Queria que Douglas irrompesse por aquela porta dizendo que acabou o teatro, amargurado por me ver naquela situação.
Dor. Emocional? Física? Não soube distinguir. De qualquer forma, corri para o banheiro para vomitar. Vomitei muito, expelindo o nada que tinha no meu estômago. Sentei-me ao lado da privada com o gosto amargo na boca. Amarga, ótima palavra para me definir.
De repente, senti-me muito zonza. Talvez pela força empenhada no vômito. Precisava voltar para a cama.

- Promete que será um bom pai? – disse eu, sem pensar, comovida.
Ele se levantou e me encarou.
- Promete que fará tudo por essa criança? Tudo o que não fará pela minha? – A minha que nunca viria, pensei, mas não disse.
Douglas apertou os olhos tentando compreender meu depoimento.
- Sua criança?
- A que está em meu útero. – disse eu, sem me mover, sem olhá-lo nos olhos.
- Diga-me... – ele tomou meu rosto nas mãos, emocionado – Este filho é meu?
- E de quem mais seria?
Ele chorou. Seria pai, realizaria seu sonho. Eu me esforçava para acreditar na minha própria mentira. Ela podia se realizar, se eu quisesse.
- Quero criar esse bebê. Quero vê-lo crescer. Quero amá-lo!
- Não! – gritei, pondo-me de pé, os lençóis envolta do corpo. – Você já tem seu filho, sua mulher! Não pode deixa-la a própria sorte! – fiz-me de vítima, olhando cabisbaixa para ele.
- Mas posso ficar com você sem me separar dela. Posso manter duas famílias.
Olhei-o atentamente. Era isso que eu queria? Isso estava em meus planos? Os olhos lagrimosos tornavam-se vívidos a medida que a ideia se desabrochasse em minha mente.
- Quero ficar com você. – isso era certeza. – Te amo. – outra certeza. – Sim, serei sua... – decidi-me, por fim. – sua, sua, sua! – repetia, e a ideia de ficar com ele escondido era excitante. Ela cozinharia, limparia a casa e trabalharia fora. E seu prazer seria todo meu.
Seria a vítima, traída e iludida, carregando um filho abastardo na barriga. Seria a vilã, enganando a própria amiga, tendo meu homem de volta, realizando meus desejos de paixão e de vingança. Seria sua amante.

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