Redes Sociais comanda as Eleições 2018


COM AS MÍDIAS DE JORNALISMO TRADICIONAIS EM COLAPSO, AS REDES SOCIAIS GANHAM FORÇA E DEFINEM AS ELEIÇÕES 2018 NO BRASIL

A batalha de Jair Bolsonaro, candidato do PSL à Presidência da República - chamado de “coiso” nas redes sociais - versus o Partido Trabalhista, representado então pelo candidato Fernando Haddad, tem rendido milhares de áudios, vídeos, memes e textos amplamente disseminados no WhatsApp, impulsionando a criação de hashtags, grupos, páginas, campanhas e movimentos em redes como o Facebook, Instagram, YouTube e Twitter. Com isso em mente, não é equívoco afirmar que as redes sociais comandaram as eleições 2018 no Brasil, e os 49,2 milhões de votos obtidos por Bolsonaro no primeiro turno é prova disso.

Pode-se afirmar que, mais uma vez, as mídias tradicionais deixam a desejar em seu papel de fazer jornalismo com qualidade, levando informação e educação à população com objetividade e imparcialidade, para que tenham autonomia de escolha e não se deixem levar por fake news amplamente disseminadas nas redes sociais, distanciando-os da verdadeira gravidade da situação social em que o país se encontra. Cabe então a civis e ativistas iniciarem seus protestos de forma autônoma.

A exemplo temos a página “Mulheres Unidas Contra Bolsonaro”, com mais de quatro milhões de seguidoras no Facebook, criada por uma mulher negra, de origem periférica e anarquista. A iniciativa gerou um grande movimento com a hashtag #EleNão, levando às ruas do Brasil e do mundo, em 29 de setembro, centenas de milhares de pessoas para protestar contra o que a candidatura de Bolsonaro representa, alcançando o marco de maior manifestação organizada por mulheres da história do Brasil. Mas, enquanto as grandes manifestações pelo impeachment e contra o PT foram cobertas em detalhes pela Rede Globo, o movimento citado foi praticamente ignorado pela mesma. Nos jornais impressos não foi diferente, dado a preferência a outras manchetes na capa.

As críticas publicadas por Eliane Brum que o diga. Repórter desde 1988, Eliane cobriu a eleição presidencial em 1989, com o país ainda comovido após o longo período da ditadura militar a que sobreviveu. Na época, Edir Macedo já havia se tornado bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, e hoje assume também a direção do grupo Record. Em sua coluna no portal El País, a jornalista afirma que “em nenhum outro momento da história, Edir Macedo (...) fundiu tão completamente o projeto de poder, mídia e religião” tal como durante as eleições presidenciais de 2018, em que Macedo apoia Bolsonaro publicamente através de sua emissora de televisão bem como redes sociais da mesma. Eliane ainda sentencia que “a campanha eleitoral ficou reduzida a uma batalha de memes e a ameaças ‘bíblicas’ pelo WhatsApp”, com “líderes religiosos” desenhando o “apocalipse caso Bolsonaro fosse derrotado - ou caso o PT vencesse”, favorecendo a criação das chamadas ‘bolhas de conteúdo’.

Nesta segunda, o professor Paolo Demuru, titular do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Paulista e doutor em semiótica pela Universidade de Bologna, publicou no portal de jornalismo independente Nexo uma análise sobre as estratégias notadas nos discursos de apoio ao candidato do PSL em grupos de WhatsApp, afirmando que a propagação de boatos e notícias falsas foi o principal estratagema da campanha eleitoral de 2018 do candidato do PSL. A descontextualização de falas de adversários políticos, associando o governo do PT a inverdades como liberação de consumo de drogas, soltura de presidiários e “estímulo a homossexulidade infantil” através do material educativo chamado grossamente de “kit gay” são alguns dos conteúdos que circularam na mídia.

O maior problema é o motivo que leva as pessoas a acreditarem nesses conteúdos e compartilharem os mesmos antes de checarem os fatos. Ter uma opinião, falar, expor-se e ser visto tornou-se mais importante que lutar pela verdadeira democracia no país. Na realidade, quando a pessoa já tem uma opinião formada sobre um assunto ela só precisa de um conteúdo que o afirme, ainda que de fonte duvidosa. Os que tentam se manter imparcial, afirmam que votam nulo - mas, na luta contra o fascismo, o antipetismo perde força e, mais do que nunca, é preciso escolher um lado em favor de todos.

REFERÊNCIAS

BRUM, Eliane. Como Resistir em Tempos Brutos: um manual para enfrentar as próximas três semanas e transformar luto em verbo. Publicado em 09 de Outubro de 2018. Disponível em https://brasil.elpais.com/brasil/2018/10/08/opinion/1539019640_653931.html

DEMURU, Paolo. Como a pós-verdade segundo Bolsonaro é produzida nas redes: uma análise sobre quatro estratégias fundamentais notadas nos discursos de apoio ao candidato do PSL em grupos de Whatsapp. Publicado em 16 de Outubro de 2018. Disponível em https://www.nexojornal.com.br/ensaio/2018/Como-a-p%C3%B3s-verdade-segundo-Bolsonaro-%C3%A9-produzida-nas-redes

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